Nota: Uma versão deste artigo em inglês está disponível aqui.

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A Falsa Dicotomia

É demasiado frequente vermos as disputas interpretadas, e mais vitalmente, controladas, através da aplicação, ou para ser mais preciso, imposição de uma falsa dicotomia. A palavra ‘falsa’ é usada neste contexto por duas razões. Primeiro, uma dicotomia é na maioria dos casos assente sobre uma série de simplificações grosseiras que não tomam em conta as similitudes que podem ter as duas posições aparentemente opostas. Em segundo, as dicotomias são na sua natureza divisivas e perpetuam desentendimentos que poderiam ser resolvidos através de uma compreensão mútua, ou melhor ainda, através de uma síntese que procura unir dois partidos previamente opostos sem, espera-se, comprometer em eloquência e precisão.

Pode-se dizer que nenhuma disputa na história moderna tem sido prolongada e mal representada através da imposição de uma falsa dicotomia de uma maneira tão grave como a disputa entre Israel e a Palestina. Somos supostos acreditar que esta disputa opõe dois eternos inimigos que têm pouca ou nenhuma vontade de chegar a um acordo. Mais ainda, e o mais importante, é que o conflito em questão é caracterizado pela existência de dois grupos aparentemente opostos, os dois dos quais alegam legitimidade de ocupação em relação ao mesmo pequeno território. A disputa territorial é um facto. A falta de vontade para chegar a um entendimento não o é. 

O Estado de Israel, o seu Propósito e os Resultados das suas Ações

É necessário a este ponto analisar a razão por detrás da imposição desta dicotomia. Somos supostos acreditar que o estado de Israel é um estado Judeu, o principio por detrás do qual é a tentativa de proporcionar um local de refúgio, e subsequentemente, proteção ao povo Judaico que tem através dos séculos sido negado um estado próprio e que tem também, sofrido discriminação e dificuldades continuas. Estes factos, este artigo não tentará por em questão. O que pode ser alvo de escrutínio é a que ponto é que o estado Israelita tem conseguido, e irá conseguir demonstrar a capacidade de cumprir a sua promessa de defender o povo Judaico. De modo a lidar com esta questão, podemos focalizar a nossa atenção em dois aspectos. As funções que são impostas aos cidadãos do estado de Israel, assim como a capacidade que o estado de Israel tem demonstrado para diminuir o sentimento de antissemitismo e de prevenir maios animosidade para com o povo Judaico no futuro.

Primeiramente, o estado Israelita é um dos, senão o estado mais militarizado no mundo. Impõe sobre os seus cidadãos, homens e mulheres, um período extensivo de serviço militar obrigatório, durante o qual os cidadãos em questão vão ser expostos a perigos consideráveis graças em parte à resistência Palestiniana, assim como a resistência de outros movimentos de resistência da parte dos seus países vizinhos. Note-se que os cidadãos sofrem multas ou mesmo períodos de cárcere se não se apresentarem ao serviço militar. Mais relevante ainda não é o perigo com os quais são confrontados graças às atividades de aqueles que se opõe ao estado Israelita que representam, ou através de eventuais multas ou cárcere às mãos do próprio estado; O mais preocupante é a medida em que as ações do estado Israelita provocam um acréscimo em antissemitismo e a representação corrupta que o estado Israelita fornece dos valores do povo Judaico e a sua religião. Esta representação negativa faz com que o próprio estado Israelita seja de facto o maior perigo para a segurança do povo Judaico, isto por causa dos perigos a que expõe a integridade física de grande parte contingente Judaico, assim como os danos consideráveis que causa à imagem do povo Judaico no seu todo.

O Aumento do Antissemitismo e o Estado de Israel 

O argumento central deste artigo, assim como a sua proposta central de como o conflito em questão deve ser conceitualizado, é portanto que o estado Israelita falhou escandalosamente na sua promessa de proporcionar um refúgio para o povo Judaico,  em grande parte por causa do perigo eminente a que expõe a sua população graças à sua natureza agressiva e militarizada, nomeadamente por causa da resistência armada que as suas ações expansionistas e opressivas cultivam nos povos vizinhos. Mais importante ainda, contudo, é de tomar em conta os efeitos negativos que as ações do estado Israelita impõe sobre o povo Judaico no seu todo; isto é graças ao facto incontestável que o estado de Israel é a mais potente fonte de sentimento antissemita no mundo moderno, e que o tem sido virtualmente desde a sua fundação violenta em 1948. É preciso notar também que o estado de Israel não falha uma oportunidade para equacionar as suas ações e valores com os do povo Judaico, o que demonstra ao mesmo tempo a sua natureza desonesta assim como a sua incrível incompetência no que toca à proteção do povo Judaico de perigo físico, assim como a sua incompetência no que toca a proteção do povo Judaico contra uma imagem denegrida no mundo inteiro.

Portanto é aqui proposto que de maneira a fazer com que a ‘resistência Palestiniana’ seja mais eficiente ela tem que, como movimento, por e simplesmente, deixar de se identificar e ser identificada como sendo exclusivamente Palestiniana. Isto é por causa do simples facto que ao adoptar tal nome, está a subjugar-se à armadilha de que foi vitima, nomeadamente ao deixar-se integrar numa falsa dicotomia que não representa a verdadeira natureza do conflito em questão. Como alternativa, o grupo de pessoas cada vez mais extenso que critica o estado de Israel e a sua opressão do povo Palestiniano tem que aceitar que a luta contra o estado de Israel é partilhado por uma grande parte dos cidadãos Israelitas, assim como um numero considerável de Judeus que não residem no estado de Israel, todos unidos na sua contestação pois todos são oprimidos pela natureza maliciosa do estado de Israel e a sua maquina de propaganda, assim como são oprimidos pelo seu complexo militar industrial selvagem, se bem que o são em dimensões diferentes e com resultados variados.

Temos portanto que resumir as posições adoptadas neste artigo, assim como a espinha dorsal da sua proposta, que é que a resistência contra o estado de Israel tem que orbitar em redor de um só principio, ou melhor ainda, de uma só síntese, para que como movimento possa ganhar em eloquência e subsequentemente, em eficiência. A síntese em questão pode ser articulada da seguinte maneira: O estado de Israel representa uma ameaça imediata para o povo Palestiniano e Israelita, e como tal é a própria antítese daquilo que prometeu ser, ao comprometer ainda mais a missão e princípios fundadores, a ambição de defender o povo Judaico. Ainda mais, as suas tentativas incessantes de afixar as suas ações ao povo Judaico no seu todo não é nada mais nada menos do que uma campanha de difamação injuriosa e prolongada contra o povo Judaico e o próprio Judaísmo, e portanto representa uma ameaça imediata contra a população Judaica no mundo inteiro. Também pode ser afirmado que o conceito de recomendar confinamento territorial (dentro das fronteiras do estado de Israel) como uma solução para garantir a segurança da população Judaica é altamente questionável de um ponto de vista estratégico, mas este é um assunto tão complexo e com precedentes históricos tão recorrentes que necessita de um outro artigo mais aprofundado para ser devidamente ilustrado, e portanto o presente artigo limita-se a esta breve alusão.

A Síntese da Terra Santa e a Guerra de Informação

A característica mais interessante do conceito aqui proposto é, espera-se, a sua veracidade, mas também as oportunidades interessantes que proporcionam para transcender e derrotar cabalmente a retórica repetitiva e vácua da maquina de propaganda do estado de Israel. Através deste conceito que tenta ilustrar as similitudes entre as posições da população Palestiniana, Israelita e Judaica, nomeadamente a ameaça imediata que o estado de Israel representa para as três, podemos neutralizar os argumentos que os sionistas mais utilizam para legitimar as ações do estado de Israel e descredibilizar os seus adversários. A primeira falsa alegação do estado Israel é que defende o povo Judaico de antissemitismo e violência, enquanto que na verdade faz o oposto. A segunda, é que enquanto acusa os seus adversários de antissemitismo, de facto é o próprio estado de Israel que é o agente de propaganda antissemita do mundo, pois não falha uma ocasião para justapor as suas ações com os valores e povo Judaico, enquanto que na realidade os seus valores e ações são o direto oposto da lei e valores Judaicos, enquanto que as suas ações como a constituição do estado de Israel também claramente são contraditórios com convenções e leis internacionais.

Ainda mais, as ações do estado de Israel comprometem a segurança do povo Judaico e só ajudam a denegrir a sua imagem colectiva. A este conceito este artigo chama ‘A Síntese da Terra Santa’, um titulo que representa que o que se procura ao resistir ao estado de Israel não é constrangido de forma alguma pelo partidarismo nem por divisões étnicas ou religiosas, mas sim por razões estritamente morais, nomeadamente a defesa dos cidadãos do mundo contra violência física e difamação injuriosa. Comunica, portanto, que a critica e resistência contra o estado de Israel não é somente uma defesa do povo Palestiniano, mas que é sim uma campanha da defesa da justiça social que não discrimina nem raça, nem nacionalidade, nem afiliação religiosa.

João Silva Jordão