A situação política de Portugal está a passar por um período particularmente decadente. Para quem pense que esta analise é algo leve, e que a atitude e calibre (ou ausência de calibre) da classe política portuguesa merece um adjetivo mais pesado, lembre-se que a situação só pode ser considerada desastrosa se esta for, no presente, muito pior em comparação ao que tem vindo a ser durante os últimos séculos. Tal simplesmente  não é verdade, pois a decadência da classe política tem sido muito consistente, infelizmente. Está a passar somente por um período onde esta mesma decadência é mais visível, pois os resultados da má gestão e dos problemas estruturais chegaram a um clímax.

Mas este artigo não é sobre este tema, pois este tem sido um assunto muito falado, e haverão outros muito mais qualificados do que eu para elucidar a população sobre a política Portuguesa. Este artigo trata de discutir outros factores que ajudam a que o povo Português permaneça num estado de apatia vertiginosa, sofrendo de uma paralisia cerebral que, adicionada à uma falta de confiança histórica, e um desejo incessante de ser governado por estrangeiros (especialmente pelas elites da Europa central, mas não só), resultando na situação presente, onde o estado lastimoso da classe política só é rivalizada pelo estado ridículo dos círculos da ‘resistência’.

Um desses factores é precisamente a tendência para ridicularizar todos os que tentam ativamente questionar o sistema, e sobretudo, os que mostram raiva e verdadeira indignação contra um sistema político, financeiro e económico que é estruturalmente desenhado para manter a população subjugada e confusa. E o exponente maior desta tendência são, em Portugal, os ‘Homens da Luta’.

Longe de duvidar por completo que estes cómicos possuem talento, ou mesmo boas intenções, é preciso questionar e criticar as repercussões sociais, e sobretudo, psicológicas do trabalho que têm vindo a desenvolver nos últimos anos. É preciso agora diferenciar entre as intenções de uma ação e o seu produto final. E o produto final neste caso é a ridicularização da indignação e raiva do povo, do ativismo político popular e do acto de manifestar o seu descontentamento. Este facto só pode levar à inevitável conclusão de que os ‘Homens da Luta’ fazem parte do complexo e engenhoso mecanismo de estupidificação de Portugal, juntamente com a ‘Casa dos Segredos’, a industria do Futebol, as telenovelas nacionais e estrangeiras, assim como, claro, a maioria do produto dos media de grande escala, seja ele (alegadamente) ‘informativo’, (supostamente) ‘educacional’ ou de entretenimento.

O que começou ‘como uma brincadeira’, rapidamente se tornou num festival de incoerência. Os grupos como os ‘Homens da Luta’ podem facilmente ser designados como sendo ‘falsa resistência’, ou, para introduzir um anglicismo, podem mesmo serem acusados de serem ‘Guardiões do Portão’ (‘Gatekeepers’). Isto porque fazem com que as multidões mais facilmente manipuláveis se juntem a eles, pensando que estes os vão levar a ideias úteis e a novas vitórias, enquanto que na verdade servem apenas como um entrave à luta contra a opressão, levando aqueles que os seguem e que neles depositam confiança aos portões da mediocridade, onde permanecem, impávidos, satisfeitos. São a versão Portuguesa do Flautista de Hamelin; levam a juventude para a sua própria destruição com a sua música aparentemente benévola (o que se pode dizer, aliás, da grande maioria da música popular, não só em Portugal, mas no mundo). Levam aqueles que estão descontentes com a situação presente até ao fundo do poço moral, no fundo do qual se encontra o ridículo e o absurdo. E não foram poucos que até agora, saltaram, levando a imagem publica da ‘luta’ com eles para dentro da espiral da falta de legitimidade e do irrisório. Mas pelo menos, fazem-no com alegria.

Pior seria ainda se não se aperceberem dos danos que causam. Se tal for o caso, nada devem perceber das dinâmicas da psicologia inversa. Mas disto, tenho muitas duvidas, porque não é por serem vendidos que são ignorantes.

Um exemplo parecido é o do cómico Sacha Baron Cohen. Os Homens da Luta fazem com a ‘luta’ o que o Borat faz com o antissemitismo- exagera-o tanto que o leva ao ridículo, tirando assim legitimidade a tudo e todos que a ele se possam associar (se bem que ridicularizar o antissemitismo não é de forma alguma detestável, pelo contrário). Uma porção do povo Americano, facilmente manipulável como é, não percebeu, e acusou o Borat de odiar Judeus, antes de se aperceberem da verdadeira natureza do trabalho do cómico em questão. Ora, desta mesma maneira, o povo Português, e sobretudo a juventude, adora os ‘Homens’, sem se aperceber que associar o ativismo político e a luta contra a opressão com comédia repetitiva e enganosa é algo inerentemente negativo e destrutivo.

A pergunta põe-se: De que serve estar ‘na rua’, a participar em manifestações, se estas são para os que nelas participam, uma piada? Será por estes e outros factores que tornou-se habito ver, durante estas manifestações, multidões nas bermas, somente a tirar fotos, e mesmo ver muitos dentro da própria marcha que só lá estão para documentarem o evento de alguma outra forma? Porquê? Porque a luta é uma piada, é uma oportunidade para beber cerveja, e para alguns, mesmo uma oportunidade para vender cerveja. Será porque, como acho que ouvi dizer em algum lado, ‘a luta é alegria pá’? Será uma maneira de se armar em revolucionário, para aparecer na televisão? Será sobre afirmação social, ou mudança social? Sim, porque uma coisa é diferente da outra, e em muitos casos, os dois são opostos. Muito nos queixamos dos políticos por só quererem protagonismo e enriquecimento, mas estas tristes figuras que fingem ser da ‘resistência’ e ‘da luta’, não fazem eles precisamente o mesmo? A diferença é que os membros da classe política dominante já não enganam ninguém, enquanto que a falsa resistência ainda engana muitos.

Pois, até porque se estes fossem um verdadeiro incomodo para a classe dominante, estes mesmos não seriam patrocinados e valorizados por uma instituição (a SIC) dirigida por um dos seus mais maquiavélicos membros, o antigo Primeiro-Ministro Francisco Pinto Balsemão, Maçom-mor e membro vitalício das reuniões super-elitistas Bilderberg.

João Silva Jordão