Historicamente, o colonialismo sempre foi perpetuado e justificado pela crença que o povo colonizador é superior ao povo colonizado. Até hoje o mito que a exploração económica da África, América, Asia e Oceânia pela parte da Europa (e mais tarde dos Estados-Unidos), e os genocídios que a acompanharam, trouxe mais-valias culturais e sociais é utilizado para fazer a apologia das invasões militares e da agressão física e mental de que foram vitimas os seus povos indígenas. A mente humana é tal que um hipotético invasor simplesmente não encontrará o contingente necessário para levar a cabo um projeto de neocolonialismo sem convencer as suas ‘tropas’ de que estão, ao invadir e agredir um povo estrangeiro, de facto a defender a virtude e a praticar uma ação correta, ou até necessária.

A maior arma do colonialismo sempre foi e continua a ser o racismo e a intolerância das culturas estrangeiras

Nos tempos modernos testemunhamos que o pretexto mais utilizado para legitimar as invasões militares que têm como objectivo principal a subjugação de povos estrangeiros e subsequentemente o roubo dos seus recursos naturais (um processo que tem a mesma finalidade que a colonização, mas que recorre a métodos algo diferentes, e a que portanto se chama de ‘neocolonialismo’) é o argumento de que se está a ‘liberar’ ou ‘democratizar’ os povos invadidos. Este pretexto depende na visão de que os povos que são invadidos são culturalmente, socialmente e politicamente retrogradas e inferiores. Sem este sentimento, a justificação para o projeto neocolonialista é privado da sua fundação, porque sem a crença de que o povo colonizador é superior ao colonizado, o processo fica portanto exposto pelo que é verdadeiramente- uma campanha de subjugação e roubo sistemático. Portanto, a crença que o povo colonizador é superior, seja essa superioridade social, cultural, política ou económica, é necessária para todo o projeto neocolonialista, assim como a desumanização dos povos a serem colonizados é vital para que o próprio projeto de colonização tenha sucesso.

Porem, a população ocidental cada vez mais está imune ao argumento que defende que as invasões militares são para de facto imporem (ou exportarem) a liberdade e a democracia, pois esta vê cada vez mais que este não é nada mais do que um pretexto para legitimar invasões que não democratizam nem liberam, e que pelo contrário, trazem ainda mais destruição, miséria e injustiça. Vemos portanto agora mesmo cada vez mais a emergência de um novo pretexto para continuar com o projeto neocolonialista: A defesa dos direitos das mulheres e dos homossexuais. Um dos melhores exemplos disto mesmo foi a capa da revista Time de 9 de Agosto de 2010, um dos veículos preferenciais para a ideologia neocolonialista e imperialista, que mostrando a imagem de uma mulher Afegã profundamente desfigurada como resultado de abusos físicos, afirma demonstrar ‘O Que Acontecerá se Deixarmos o Afeganistão’.

A capa do Time, mostrando uma mulher Afegã desfigurada, tenta legitimar a ocupação militar do Afeganistão com as palavras: 'O que Acontece se Deixarmos o Afeganistão'

Ora, esta fotografia mostra uma mulher que sofreu abusos graves e condenáveis, mas a ideia que a presença militar Norte-Americana melhora a condição das mulheres no Afeganistão não é só incorreta: é ofensiva e contraditória. A seção da população que mais sofre com a guerra são precisamente as mulheres. Ora, defender uma invasão militar ao dizer que esta tem como objectivo melhorar a condição das mulheres no pais invadido é uma contradição gravíssima, contradição a qual somente as mentes mais limitadas não conseguem identificar. Ainda para mais as tropas invasoras têm, historicamente, a tendência para violar as mulheres locais, muitas das quais são muito jovens e vulnerabilizadas ainda mais pela própria dinamica inerente à guerra. Existem muitos casos onde tropas que supostamente vêm liberar uma nação de facto são culpadas de violação e às vezes, mesmo de violações que acabam em assassínio. No Afeganistão, uma rapariga morreu de feridas resultantes de uma violação brutal na província de Farah, enquanto que no Iraque uma rapariga de somente 14 anos morreu, assim como três dos seus familiares, depois de ter sido violada por três soldados Norte-Americanos antes de ser abatida a tiro. Estes serão os raros casos onde tais atrocidades são reportadas, e o numero real das mulheres que sofreram tais horrores como resultado de invasões que dizem ‘democratizar’ as nações do Sul será muito difícil de determinar.

Estes casos ilustram como o feminismo e a luta da defesa dos direitos das mulheres é muitas vezes pervertida para legitimar ações que de facto levam a ainda mais violência e abuso das mulheres. Existe também cada vez mais uma insistência na ‘defesa dos direitos dos homosexuais’. Este é claramente mais um instrumento que está a ser adicionado ao vasto arsenal dos pretextos para perpetuar o neocolonialismo e desumanizar os povos do Sul. Em Dezembro de 2011, a Hillary Clinton prometeu que os Estados Unidos da América vão ativamente defender os direitos dos homossexuais através de diplomacia e ‘ajuda’ económica. Esta declaração foi interpretada como sendo direcionada a certos países Africanos, o que é de certa forma confirmado pelas recentes declarações de Ban Ki-moon, que em Janeiro de 2012 declarou que os líderes Africanos deviam respeitar os direitos dos homossexuais.

Hillary Clinton afirma a determinação dos Estados Unidos na defesa dos direitos dos homossexuais

O direito à liberdade e o direito da defesa contra a opressão deve, claro, ser defendido através do raciocínio, do debate e da diplomacia; Mas pelo contrário, o que cada vez mais se materializa tanto no plano político como cultural, é a perpetuação das politicas e da mentalidade neocolonialista, que mesmo tendo os mesmos objectivos que tinham os processos do velho colonialismo, o roubo e a subjugação de povos estrangeiros, utilizam porem pretextos cada vez mais complexos e desonestos. Ainda para mais, do ponto de vista cultural, a população do Ocidente, sobretudo aqueles que se vêm como fazendo parte da ‘resistência’ e dos circuitos de pensamento alternativo cada vez parecem ter menos capacidade de pensar de uma forma critica e racional no que toca à sua analise das culturas diferentes, sobretudo aquelas que estão presentes nos países do Sul. Sobretudo, consta-se cada vez mais que em nome da tolerância, as culturas que têm opiniões que divergem do pensamento liberal ocidental no que toca a homossexualidade e o lugar das mulheres na sociedade são alvos de uma completa intolerância. Em conclusão, os processos de desumanização assim como o Eurocentrismo que tem vindo a ser a grande fonte da capacidade da própria Europa para oprimir os povos que a rodeiam ainda estão presentes, e são cultivadas em nome da liberdade e da tolerância, enquanto que na verdade desencadeiam e legitimam muitas vezes processos que na prática retiram a liberdade e cultivam a intolerância.

João Silva Jordão