A geração maioritariamente apolítica e sem ideologia que é a juventude moderna aclama por novas formas de pensar, novas identidades, novas guerras para lutar. É neste contexto que se insere o filme Kony 2012, um perfeito exemplo das campanhas de propaganda que utilizam as redes sociais para avançar os interesses das elites políticas e militares.

Sob o pretexto de ‘lutar contra a guerra’, este filme de 30 minutos visa fazer com que Joseph Kony, um violento líder de um exercito rebelde do Uganda sem ideologia aparente, fique famoso. Mais ainda, visa angariar fundos para financiar 100 membros de forças especiais Americanas estacionadas no Uganda. Mas quem acaba de ver o filme só se aperceberá do primeiro objectivo- fazer com que Kony fique famoso. Porque no meio de tanta manipulação emocional reside muito pouca informação factual e muita desinformação, a qual camufla o verdadeiro objectivo do filme e as implicações da sua campanha. Sobretudo, este filme esconde as suas verdadeiras afiliações politicas com um festival de facilitismo emocional infantil que omite muita informação, informação a qual, se considerada calmamente, faria com que qualquer espectador se apercebesse rapidamente da verdadeira natureza deste filme- é propaganda que exige mais uma intervenção militar dos Estados Unidos da América no hemisfério Sul. Em vez de realmente propor maneiras de parar com o conflito armado em questão, Kony 2012 irá somente fomentar mais guerra e mais sofrimento.

Fundadores do grupo Invisible Children com rebeldes Sudaneses eles próprios acusados de graves crimes de guerra contra civis, com o realizador do filme Kony 2012 à direita

Durante o filme, o realizador Jason Russel explica ao seu filho que Joseph Kony é um homem mau que rapta crianças e mata civis na sua guerra pessoal sem fim, e que ele próprio, o realizador, é o bom da história que quer parar Kony custe o que custar. O jovem rapaz conclui rapidamente que Kony tem que ser parado, como o fazem os espectadores do filme. O que Jason não explica ao filho é que ele e a sua organização, Invisible Children, utiliza as suas receitas (provenientes de doações como as angariadas através do filme Kony 2012) para apoiar financeiramente  o exercito da Uganda (eles próprios acusados de violar e matar civis na Uganda, liderados pelo criminoso de guerra Museveni) e forças rebeldes do Sudão (exercito igualmente brutal e criminoso, também eles fazendo recurso ao rapto de crianças para integrar no seu exercito) pois utiliza estes como veiculo para os seus fundos que só depois chegam às crianças que dizem ajudar. Estas ligações são claro omitidas pelo filme Kony 2012 pois o grande instrumento emocional que utiliza é precisamente a condenação do abuso de crianças, sendo que divulgar o facto que o grupo Invisible Children financia exércitos que fazem o mesmo seria no mínimo comprometedor.

Soldados crianças das forças rebeldes do Sudão (Sudan People’s Liberation Army), organização apoiada pelo grupo Invisible Chilren, esperam por comida num campo de refugiados

E a maneira simplista e arrogante com que a história é contada ao filho do realizador durante o filme resume o tom do próprio Kony 2012 para com o público. Kony é mau, muito mau, e tem que ser parado. Para este efeito, o filme cria a ilusão de ser independente, sendo simplesmente um movimento de jovens cheios de boas intenções que solicitam a participação de todos para fazer com que o criminoso de guerra Kony seja preso e levado à justiça. Mas longe de ser independente, dá a voz a Luis Moreno Ocampo, procurador do Tribunal Internacional do Crime (International Crime Court), um dos instrumentos propagandistas mais eficientes na guerra fraudulenta e imperialista contra o ditator Líbio Muammar Ghaddafi, proferindo, entre outras mentiras, que este tinha atacado os cidadãos Líbios com aviões caça, acusação a qual nunca foi apoiada com provas. Este mesmo Ocampo rejeitou no passado condenar o Presidente da Uganda, Museveni, por crimes de guerra.

Um dos momentos de climax do filme é quando o realizador anuncia que Obama prestou-se, em Outubro de 2011, a mandar 100 membros de forças especiais Americanas para a Uganda, que o filme chama de ‘conselheiros’, noticia a qual é recebida com festejos e grande emoção pela parte dos jovens que o acompanham, como se uma intervenção militar Americana fosse equivalente a maior paz e sossego, quando na realidade cada intervenção Americana só tem no passado recente aumentado as dificuldade dos países invadidos, como o demonstra a desastrosa invasão do Afeganistão, e a invasão do Iraque (fomentada através da invenção de armas nucleares não-existentes), a qual já resultou em mais de 100,000 mortos.

O Criminoso de Guerra Ugandês, lider do Exercito de Resistência do Senhor (Lord’s Liberation Army, ou LRA) Joseph Kony

E existem muitos factos importantes que o filme omite.

Primeiro, Joseph Kony, longe de ser uma personagem desconhecida e ignorada pelo Ocidente, já foi alvo de cinco tentativas de assassínio pelos Estados Unidos da America, sendo que cada uma destas tentativas só aumentou a violência e o numero de mortes na Uganda.

Segundo, Kony já não se encontra na Uganda (facto que o próprio filme admite) sendo que o país tem conhecido a paz nos últimos 6 anos, sendo que a angariação receitas para as forças especiais dos Estados Unidos da América estacionadas no Uganda nada tem a ver com Kony, sendo sim mais uma campanha de neocolonialismo Americano na Africa.

Terceiro, muitos Ugandeses detestam a organização Invisible Chilren por esta apoiar o exercito da Uganda e por terem a sensação que eles estão lá somente para lucrarem financeiramente do seu povo e país.

Quarto, este filme continua a denegrir a imagem do povo Africano, que no simples mundo do Kony 2012 são incapazes de resolver os seus próprios problemas, sendo que estes só podem ser resolvidos com mais intervenções militares dos países Ocidentais.

Quinto, a Invisible Children gasta a maioria do seu dinheiro em ações de propaganda e marketing, e menos de metade em ações de caridade, tendo sido atribuído um rating de somente 2 estrelas pelo Charity Navigator em transparência e ‘accountability‘ pelo facto das suas contas nunca terem sido inspeccionadas por agentes independentes.

Sexto, o filme esquece-se de denunciar Museveni, ditador também ele brutal e assassino da Uganda, precisamente pelo facto da organização Invisible Children ser apoiada e apoiar o governo da Uganda.

Sétimo, a Uganda descobriu uma quantidade equivalente a 2 mil milhões de barris de petróleo há quatro anos, razão que de certeza estará por detrás do interesse acrescido dos Estados Unidos da America no país.

O mais preocupante é que muitos poucos dos espectadores do Kony 2012 se apercebem que o objectivo do filme é legitimar e angariar receitas para mais uma invasão Americana, que neste momento tem bases militares em pelo menos 150 países no mundo inteiro, tendo operações militares ativas no Iraque, Afeganistão, Iémen, Líbia, Paquistão, entre outros. A carga emocional do filme é tal que solicita ao espectador uma resposta visceral e irracional, sem que este tenham sequer a vontade de pesquisar melhor o conflito para apurar os factos e descartar o sensacionalismo.

O filme Kony 2012 está repleto de mentiras, simplificações, e muita omissão de informação. Numa época onde o facilitismo invade todas as áreas de vida moderna, é preciso com que a analise do mundo não seja ele também vitima de processos que distorcem a verdade, manipulam emocionalmente as pessoas, e acima de tudo, estupidificam a população e relegam o ativismo político a moda e seguidismo. Porém, ver o filme Kony 2012 é quase obrigatório pois se trata de um trabalho de propaganda simplesmente brilhante que ilustra de maneira assustadora o futuro dos média, demonstrando (aos espectadores com capacidade de analise critica) como são utilizados para manipular as boas intenções do público com o fim de legitimar as intenções das elites militares e políticas.

E há uma mensagem que o filme deixa claro, e com toda a razão:  o mundo precisa de mais paz. Porém, para que haja mais paz, a ultima coisa de que precisamos é de ver os Estados Unidos da America a invadir ainda mais países sob o pretexto de os ajudar. As guerras humanitárias nunca poderão ser humanitárias, pela simples razão que levarão sempre inevitavelmente a mais guerra

João Silva Jordão