Como resultado da ideologia secular que cada vez mais influencia o pensamento Ocidental, as diferentes religiões são vistas simplesmente como a codificação de normas culturais. Por esta razão, a cultura árabe, e até outras culturas distintas do ‘Sul’ são confundidas com o Islão. Tudo o que acontece (de condenável) nos países ditos de maioria Islâmica é culpa do Islão numa considerável porção das mentes Ocidentais. Podemos porém constatar facilmente que o Islão contradiz diretamente uma grande parte das crenças e práticas prevalentes na península Árabe de 1400 anos atrás, época onde surge Maomé com a sua mensagem, o Islão. Antes da vinda de Maomé (que a paz esteja com ele[qapece]), em Mecca, na sua cidade natal, a idolatração de estátuas de pedra, madeira ou barro estava no centro da vida religiosa dos habitantes, enquanto que Maomé defendia o monoteísmo puro, que crê num Deis imaterial e infinito. O infanticida feminino era muito comum, enquanto que o Corão proíbe inequivocamente esta prática: (16:58-59) “E quando se lhes anuncia o nascimento de uma menina, as suas caras ficam escuras e cheias de magoa. Com vergonha ele esconde-se da sua gente por causa das más noticias que recebeu! irá ele guarda-la com relutância ou enterrá-la na areia? De certeza agora o Mal é o que eles julgam!”

O Corão é a compilação dos discursos que o profeta Maomé (qapece) começou com as palavras ‘Bismillah al Rahman al Rahim’, ou seja, ‘Em nome de Deus, o Misericordioso, o Clemente’, e foi compilado pelos seus companheiros sendo que o próprio Maomé era iletrado

Ainda para mais, os árabes eram (e infelizmente muitos ainda são) profundamente tribais, enquanto que o Islão defende uma só nação de todos os povos Islâmicos do mundo, sendo claramente internacionalista e portanto contrário ao tribalismo o nacionalismo e o racismo. Nomeadamente, um dos companheiros mais próximos de Maomé (qapece) era o Bilal (ibn Rabah al-Habashi), escravo libertado pelos muçulmanos do tirano Umayyah ibn Khalaf, um grande opositor do Islão e do profeta Maomé. Bilal foi o primeiro a ser pessoalmente escolhido por Maomé chamar à reza em Meca, facto que incomodou uma grande parte da seção mais conservadora da sociedade de Meca que, sendo racista, não gostava de ver um negro em cima da Caaba.

Bilal chama à reza no topo da Caba

Os árabes bebiam muito álcool e jogavam jogos de sorte com dinheiro, duas elas práticas proibidas no Islão. O adultério e a promiscuidade eram comuns, práticas estas também condenadas pelo Islão. A questão aqui não é tanto de analisar o que o Islão prescreve em si, mas mais de demonstrar um facto claro: O Islão é claramente diferente à cultura prevalente entre os árabes de Meca e da península Árabe na época pré-islâmica.

Podemos dizer que a confusão que muitos fazem entre o Islão e a cultura árabe, entre os muçulmanos e os árabes, não é somente resultado de uma ignorância profunda sobre o tema- sobretudo é o resultado de uma escolha consciente de quebrar a barreira entre a nossa compreensão do corpo cultural e o corpo religioso. Entre outros erros, esta dissolução ignora o facto que as culturas são por definição, instáveis e em constante mudança, enquanto que uma religião, ou seja, um corpo ideológico consolidado, pode ter uma constância particular se por exemplo orbitar à volta de um livro que não muda. Este é o caso do Corão, livro que na sua versão árabe permanece igual desde a sua compilação pelos acompanhantes do profeta Maomé (qapece).

Porém, de facto muitas práticas pré-islâmicas ainda são praticadas nos países ditos de maioria islâmicas; muitas destas práticas são incorretamente, e por vezes maliciosamente utilizadas para denigrir a imagem do Islão. Estes incluem:

-Assassinatos de ‘honra’

-Circuncisão feminina

-Tribalismo e racismo

-Supremacia árabe e imperialismo árabe

-Materialismo extremo

-Desigualdade económica e falta de apoio às populações pobres (um dos crimes mais graves no Islão)

-Castas

-Repressão da mulher

O Islão expandido ao ponto da população árabe representar somente 15% do contingente muçulmano, a maioria encontra-se espalhada por países como a Indonésia (213 milhões), India (174 milhões), Paquistão (16e milhões), Bangladesh (129 milhões), Turquia (68 milhões), Irão (67 milhões) e Nigéria (64 milhões) os quais têm populações árabes ou minoritárias ou virtualmente inexistentes. O Irão é muitas vezes confundido com um país árabe, mas somente 2-3% da sua população é árabe, tendo uma maioria Persa, e a Turquia, também muitas vezes confundida com um país árabe, tem somente 0.7% de população etnicamente árabe, tendo uma maioria de etnicidade Turca. Por esta razão, as práticas dos muitos países de maioria Islâmica (cerca de 50, cerca de um quarto do numero toral de países do mundo) representam muitas vezes as variadas culturas presentes antes do alastramento do Islão, não tendo  muitas vezes nenhuma ligação direta ideologia ao Islão em si.

Lista dos dez países com maior numero de muçulmanos (fonte: wikipedia- http://pt.wikipedia.org/wiki/Anexo:Lista_de_muçulmanos_por_pa%C3%ADs)

Mesmo sendo que o Islão é muito incompreendido, seja o que for, é hoje em dia o inimigo numero um do Ocidente. O exército dos Estados Unidos da América declararam-lhe guerra total. A industria anti-Islâmica movimenta milhões de Euros, seja na sua vertente militar, ‘intelectual’, académica, mediática, política ou cultural.

Os inimigos do Islão sempre o subestimaram, desde o episódio do convite às famílias próximas (a tradição [hadith] do aviso, ou ‘Da‘wat dhul-‘Ashīrah’), onde somente Ali aceitou o convite de Muhammed para declarar aliança ao Islão (facto que provocou gozo entre os indivíduos presentes na ocasião), até aos dias de hoje. Mas o Islão nunca foi fácil de derrotar. A própria profecia Islâmica afirma que o Islão vai sair deste mundo da mesma maneira que entrou- como um desconhecido. Mas não será por estar submetido a um ataque exterior, mas sim pela degeneração dos próprios muçulmanos. Existe uma tradição do profeta (qapece) proferida por Hudhayfah ibn al-Yaman, que disse: “O profeta (qapece) disse, ‘O Islão irá desgastar-se, como um pedaço de roupa, até que não haverá ninguém que saiba como se faz jejum, como se reza, nem sobre caridade e outros rituais. O Corão irá desaparecer numa só noite, e nenhum verso ficará na terra. Alguns grupos de idosos permanecerão, dizendo ‘Nós ouvimos os nossos pais dizerem la ilaha illa Allah (não existe deus senão Deus) então nós repetíamos”. Segundo esta tradição o Corão irá desaparecer e o Islão irá degenerar ao ponto de desaparecer porque os seguidores somente repetiam os seus pais, não compreendendo a essência de religião.

Muitas das mentiras propagadas sobre o Islão são igualmente resultado da ignorância dos próprios muçulmanos. Existe uma tradição do profeta Maomé (qapece) que afirma que quando se aproximar o final dos tempos, o conhecimento desaparecerá, mesmo sendo que haverá uma abundância de livros. Muitos hoje em dia acreditam que fingir que tudo vai bem na nação Islâmica consistem em defender a sua religião. Pelo contrário, acreditar no Islão implica acreditar que a nação Islâmica vai ser afectada (ou melhor, já está a ser afectada) pela descrença, corrupção e imoralidade. O profeta (qapece) disse que haveria uma época em que os muçulmanos seriam muitos, mas seriam como a espuma do mar, ou seja, inconsequentes, dispersos e sem peso real. Se é verdade dizer que o Islão é a filosofia mais incompreendida do mundo, será igualmente verdade dizer que a ignorância sobre o Islão é também cada vez mais prevalente entre os próprios muçulmanos.

João Silva Jordão