O filme que ilustra o profeta Maomé (que a paz esteja com ele [q.a.p.e.c.e.]) de uma maneira crude e insultuosa, alegadamente produzido por um Israelita, está a provocar uma onda de indignação e violência no mundo Islâmico. Existem várias dimensões de grande interesse a analisar na mais recente controvérsia relativa à ilustrações do profeta (q.a.p.e.c.e.), assim como a reação que provoca entre os muçulmanos.

O consulado Americano em Benghazi, Líbia, depois do ataque

O primeiro facto a constatar é que a verdadeira identidade do autor do filme ainda não está confirmada. A tentativa de identificar o autor do filme como sendo Israelita tenta fortalecer a dicotomia que opõe os Judeus aos Muçulmanos, perpetuando assim o conflito regional no Médio Oriente. Porém muitos afirmam agora que o verdadeiro autor é de facto um homem da California. Os insultos ao profeta (q.a.p.e.c.e.) ou ao Islão são muitas vezes instrumentalizadas por razões políticas, seja por muçulmanos ou pelos seus antagonistas. Este exemplo será sem duvida mais um caso disso mesmo, como podemos constatar pelas declarações de Obama, que prometeu retaliação pelo assassinato do Embaixador Americano na Líbia, J. Christopher Stevens.

Os ‘rebeldes’ da Líbia, previamente apoiados incondicionalmente pela NATO, arrastam o corpo do Embaixador Americano, Christopher Stevens

Por sua vez as declarações de Obama demonstram mais uma vez as profundas  inconsistências na política externa dos Estados Unidos da América, qualificando o assassinato de ‘violência sem nexo’, quando a política de agressão dos Estados Unidos já causou, se considerarmos somente o Iraque, cerca de um milhão de vitimas. Qualificar o assassinato de um homem, por muito condenável que este acto seja, de ‘violência sem nexo’ vindo da força imperialista mais violenta no mundo é, no mínimo, um profundo acto de hipocrisia.

Ainda para mais, o mesmo Obama jurava meses atrás aliança aos ‘rebeldes Líbios’, que desde Fevereiro de 2011 lutaram na guerra contra Muammar Ghaddafi. Porém, desde muito cedo que a narrativa do bloco Ocidental em relação aos acontecimentos da Líbia se revelou ser completamente falsa. Primeiro de tudo, os ‘rebeldes Líbios não eram tão Líbios quanto isso. O Qatar admitiu ter enviado centenas de tropas para ajudar a derrubar o Ghaddafi, enquanto que o Reino Unido, um dos atores principais da guerra propagandista, apoiou os ‘rebeldes’ desde o inicio, sendo que o MI6 em particular teve um papel importante. A BBC já admitiu o papel ‘secreto’ das tropas Britânicas desde o inicio do conflito, afirmando que a sua presença não se limitou a apoio aéreo: tropas Britânicas estavam desde Março de 2011, ou seja, no começo da crise na Líbia, no terreno a apoiar o Concelho Nacional de Transição. Entretanto surgiram noticias que demonstram que o envolvimento de tropas Francesas, Italianas e até Canadianas foi muito mais profundo do que foi admitido nas primeiras instâncias da guerra.

São estes mesmo rebeldes que o bloco da NATO apoiou que agora estão a ser culpados pelos Estados Unidos da América pelo assassinato do Embaixador Americano na Líbia. Mas sem o apoio da NATO estes nunca teriam chegado ao poder. Desde muito cedo, os próprios rebeldes demonstraram ser altamente instáveis, lutando constantemente entre si, sendo em particular os conflitos entre os rebeldes relativamente ao controle do aeroporto de Tripoli uma fonte constante de violência.

Os ‘rebeldes’ perto do Aeroporto de Tripoli, Líbia

Mais chocante ainda é a infiltração de forças da Al-Qaeda entre as forças rebeldes, facto que em nada enfraqueceu o apoio da NATO.

Al-Hasidi, um dos vários membros dos ‘rebeldes’ que é suspeito de ter fortes ligações à Al-Qaeda

Entretanto os protestos contra o filme que insulta o profeta Maomé (q.a.p.e.c.e.) e o Islão que foi recentemente lançado continuam a espalhar-se pelo Médio Oriente. Primeiro foi o consulado Americano em Benghazi, depois foi a embaixada Americana no Iémen, e agora a embaixada Americana em Cairo. Mas estes protestos demonstram mais do que a frustração na comunidade Islâmica em relação à constante agressão de que são vitimas, sejam estas agressões militares ou verbais. Sobretudo, demonstram o fracasso da política externa do bloco Ocidental no Médio Oriente e a aparente inevitabilidade do alastramento do conflito para outros países de maioria Islâmica.

João Silva Jordão