Claramente os governantes do Bloco Ocidental não têm uma opinião muito positiva da inteligência da população. Talvez com razão. Talvez não. Não é esta a questão. Uma análise da inteligência da população será sempre tendenciosa e limitada. Mais construtivo seria analisar os termos e ideias que são utilizadas para levar a população a pensar menos e a obedecer mais, ou seja, é fundamental identificar as dinâmicas estupidificantes prevalentes na nossa sociedade. No topo da lista de termos que agem como um sedativo para o intelecto individual e colectivo estão sem duvida as palavras ‘extremista’, ‘terrorista’ e ‘fundamentalista’.

Se juntarmos várias imagens relacionadas com as palavras ‘extremista’, ‘fundamentalista’ e ‘terrorista’ numa só, obtemos este resultado. Muitíssimo interessante.

A palavra ‘extremista’ denomina hoje na mente colectiva um individuo violento e perigoso. Indica alguém que detesta uma coisa qualquer mas sem saber exatamente porquê. Porém, o verdadeiro significado da palavra é outro completamente, mesmo sendo que se transformou num termo meramente utilizado para insultar o mais variado tipo de pessoas. Não passa de isso mesmo- um insulto. Mas o seu verdadeiro significado é muito simples, e não tem necessariamente que ser negativo. Um ‘extremista’ é alguém que tem uma relação com um extremo. Exatamente. Não quer dizer grande coisa. Por exemplo, podemos ser extremistas se levarmos a honestidade ao extremo. Podemos ser extremistas se levarmos a generosidade ao extremo. A palavra extremista indica uma medida, não indica nem o que está a ser medido nem muito menos a essência ética daquele ou daquela que se acusa de ser extremista. O extremismo não indica uma falta de virtude só por si. Aliás, a virtude pode ela também ser levada ao extremo. Sobretudo, é um termo que é utilizado para moderar o comportamento da população, de modo a que esta não abandone o seu estado de sonolência e apatia crónica por medo da exclusão social que a acusação de extremismo pode engendrar. Qualquer sinal de vida, de opinião própria, de vigor ou de convicção é altamente censurada por um Estado que prefere uma população servil, conformista, cansada e sobretudo, confusa.

Já a palavra ‘terrorista’ deveria ser mais difícil de manipular. Mas não é. É hoje em dia utilizada por quase todos por tudo e por vezes por quase nada. Não são somente grupos armados ou violentos que o Bloco Ocidental acusa de terrorismo. A palavra está tanto na moda que serve para deslegitimar qualquer pessoa que faça uma coisa qualquer. Ninguém está ao abrigo. Todos são suspeitos, e todos são culpados antes de serem provados inocentes. E mesmo depois de serem provados inocentes, mesmo assim, nunca se sabe. É preciso ter precaução. Toda a gente pode hoje em dia ser um terrorista, é só necessário contrariar alguém de uma maneira qualquer para que a palavra seja banalmente atirada na nossa direção. Mas é claro que uns estão sempre mais sujeitos a serem acusados de terrorismo, e no topo da lista estão aqueles que questionam e lutam contra a opressão Estatal. O primeiro terrorista é aquele ou aquela que tem a audácia de desobedecer à autoridade, enquanto que todos os outros são terroristas a tempo parcial.

Mais uma tentativa de juntar imagens relativas aos três termos mágicos, e é este o resultado. Altamente perturbador.

O ultimo termo vácuo e (cada vez mais) insignificante que precisamos de desconstruir, e provavelmente o mais interessante, é o termo ‘fundamentalista’. Este termo hoje em dia não significa absolutamente nada. Melhor, a sua utilização só nos indica algo sobre quem o utiliza, sem nos dizer estritamente nada de relevante sobre aqueles que são acusados de o ser. O termo ‘fundamentalista’ é utilizado na sua grande maioria por personagens arrogantes que vivem na ilusão de ter uma mente aberta e critica, que extraem da impressão de terem um intelecto mais poderoso do que a maioria um fundamento para o seu complexo de superioridade. É um termo esse que é utilizado para denegrir a imagem de todos os que possam ser acusados de aderir a um dogma, ideologia, tradição, ou até, nos casos mais preocupantes, a uma religião. Na mente de quem acusa os outros de fundamentalismo, os ‘fundamentalistas’ têm tendências verdadeiramente perturbadoras. Muitas vezes têm códigos éticos minimamente consistentes, dos quais não abdicam consoante as suas necessidades momentâneas. Podem até nos piores dos casos aderir a crenças e práticas que contradizem a maioria, recusando-se a regurgitar as opiniões propagadas pelos órgãos de manipulação social (ou ‘órgãos de comunicação social’ se preferirem). Os ‘fundamentalistas’ são particularmente susceptíveis a acreditar em ‘teorias da conspiração’, ou seja, em narrativas que sejam de alguma forma diferentes daquelas defendidas pelos Estados que compõe o Bloco Ocidental. Muitos não acreditam que dois aviões possam pulverizar três arranha-céus, não acreditam que o John F. Kennedy tenha sido morto por um só homem e não acreditam que a alguma vez se vá descobrir armas de destruição maciça no Iraque. O fundamentalismo é claramente uma patologia perigosa a qual pode em casos mais descontrolados levar a um pensamento independente e estruturado, e até a actos de desobediência civil.

João Silva Jordão