Os movimentos sociais desempenham um papel cada vez mais central na realidade política como resultado do empobrecimento generalizado e a resultante radicalização crescente da população da Europa. A confiança nos Estados e nos governos que os levaram a esta situação está-se a dissipar, e os partidos, sobretudo os que têm formado governos, mas também de certa forma aqueles com representação parlamentar, são naturalmente alvos de maior desconfiança. Os movimentos sociais surgem portanto como um veiculo alternativo supostamente mais credível para a atividade política. Porém os movimentos sociais raramente estão fora da esfera de influência de Estados, governos ou partidos, muito pelo contrário. Muitos movimentos sociais agem como catalisadores da radicalização e da desobediência civil, enquanto que outros servem como agentes moderadores que captam a indignação popular proporcionando saídas institucionais para a revolta. Estes não são movimentos sociais, são vigarices sociais. Estes últimos tendem a ter ligações de proximidade com o Estado, sindicatos ou com partidos políticos com representação parlamentar, muitas vezes tendo militantes em comun, ou sendo diretamente ou indiretamente financiados pelo Estado. Este ultimo género de ‘movimento social’ age como um disfarce por detrás do qual partidos e sindicatos abordam, recrutam ou cooptam os sectores da população mais suscetíveis de desconfiar em partidos e sindicatos.

Manifestação organizada pela União Nacional de Estudantes (NUS) a 21 de Novembro de 2012 contra a subida das propinas e contra os cortes na educação

Porém, quando estes movimentos insistem em oferecer saídas institucionais, nomeadamente através da integração ou apoio de um partido político influente, são encarados com o mesmo problema com que começaram- são vistos com desconfiança, e começam a perder a sua base de apoio, sobretudo em períodos de instabilidade política e/ou dificuldade económica. Esta desconfiança que agora se estende, abrangendo também movimentos sociais é difícil de explicar com palavras, de certa forma porque é uma desconfiança do foro emocional. É o resultado de um profundo sentido de traição que transcende divisões de classe, género, orientação política ou estilo de vida. É o sentimento cada vez mais generalizado que as supostas estruturas de representação são pouco representativas, sejam eles partidos, sindicatos, e cada vez mais, movimentos sociais.

Um exemplo onde o abismo entre a radicalidade da população e a moderação sistemática e propositada das estruturas de representação se exprimiu de forma visível foi durante a revolta dos estudantes contra a direção da maior associação de estudantes no Reino-Unido, a NUS (National Union of Students/ União Nacional de Estudantes) durante uma manifestação no dia 21 de Novembro de 2012, onde os estudantes protestaram contra o aumento de propinas e os cortes nos subsídios a estudantes.

A direção do NUS fez com que a marcha fosse até ao pé do Parlamento, afastando-se depois para acabar num sítio de menor importância e simbolismo. Uma grande parte dos manifestantes recusaram-se a seguir o caminho previamente acordado com a polícia pela organização do NUS, sendo empurrados e redirecionados pela polícia. Os estudantes depois invadiram o palco de onde os directores da NUS estavam a falar, gritando ‘Sell-outs! Sell-outs! Sell-outs!’ (Vendidos! Vendidos! Vendidos!), uma palavra de ordem que indica que muitos estudantes não sentem que os líderes da NUS defendam realmente os interesses dos estudantes, e que se venderam ao sistema contra o qual alegam combater.

Manifestantes contra a subida das propinas no Reino-Unido invadem o palco da União Nacional de Estudantes (NUS) a 21 de Novembro de 2012

Os resultados estão à vista. Desmobilização, contestação, e conflito interno no movimento estudantil. Enquanto que manifestações de estudantes anteriores chegaram aos 50,000 participantes, desta vez somente alguns milhares compareceram. E a imagem que melhor ilustra os acontecimentos desta manifestação é a dos estudantes em cima do palco ostentando as próprias bandeiras, tendo efetivamente causado o fim abrupto da manifestação.

Manifestantes contra a subida das propinas no Reino-Unido invadem o palco da União Nacional de Estudantes (NUS) a 21 de Novembro de 2012 (2)

A função de organizações como o NUS pode ser ilustrada, curiosamente, com uma expressão particularmente útil na língua Inglesa, ‘Gatekeeper‘, ou seja, o ‘Guardão do Portão’. O Guardião do Portão é a personificação da falsa resistência, que neste contexto é a pessoa ou entidade que condiciona o acesso a plataformas de contestação. A falsa resistência é constituída por aqueles entidades que são alegadamente subversivas mas que de facto agem como mecanismos de contenção, como sucessivas comportas cujo objectivo é de absorver toda e qualquer resistência e pressão de modo a fazer com que estas sejam ineficazes. O Guardião do Portão diz ter as chaves de todas as portas, mas somente nos leva ao próximo portão, impedindo-nos de ir mais longe. O Guardião do Portão fala em revolta mas constringe a iniciativa política. O Guardião do Portão promete mudança mas age somente como um agente de preservação. Quando queremos dar dois passos à frente, garante que somente podemos dar um passo atrás e meio à frente. Fala em liberdade mas fiscaliza a contestação. Enquanto a população defende a anulação da dívida, o Guardião defende a renegociação. O Guardião fala em unidade mas defende que a população deve permanecer desorganizada. Defendem que devemos deixar a contestação para eles, que eles tratam do assunto.

Na realidade política atual em Portugal a entidade e individuo que melhor cumprem o papel de Guardião são o Partido Socialista e o seu líder, José Seguro. Fala em mudança, finge resistir, mas é somente mais um veiculo para absorver a contestação para se assegurar que ela não leve a nada. Cativa os sonhos da população para que estes não se possam concretizar. A comunicação social refere-se a Seguro como o ‘líder da oposição’. Porém qualquer indivíduo honesto com verdadeira sede de mudança que siga o Seguro, a mais recente reincarnação do líder da falsa resistência, ou os outros fantoches vindos do mesmo molde (Ver: Obama, Lula, Rousseff, Hollande), nunca conseguirá mudar profundamente o Estado nem muito menos mudar o estado das coisas. Mas o Seguro e o PS não estão sozinhos. Muitas outras organizações  servem para conter a revolta da população, garantindo que a sua contestação se exprima de forma ‘legal’ e ‘aceitável’, ou seja, que as opiniões da população tenham o mínimo de impacto na realidade.

Um dos estudantes entrevistados pelo ‘The Real News Network’ (minuto 4:45 no vídeo) resumiu as diferentes posições no seio da NUS que levaram à invasão do palco: “Há uma divisão no seio da NUS agora, entre aqueles que acreditam que podemos continuar a construir o movimento, para sermos cada vez mais fortes, e há aqueles que querem que sejamos silenciosos, e ter a certeza que vamos votar no Labour (partido equivalente ao Partido Socialista Português) em 2015”. Muitos dos estudantes são da opinião que o apoio da NUS ao Partido Trabalhista é incompatível com a contestação ao aumento das propinas e aos cortes na educação, visto que os governos do Partido Trabalhista têm feito exatamente o mesmo.

O líder da NUS declara num estilo próprio de qualquer Guardião do Portão competente, criticando moderadamente o governo sem por isso conseguir reivindicar nada em concreto: “Nós tivemos uma promessa solene de um número de membros do Parlamento que as propinas não deviam ser aumentadas, mas  mentiram e voltaram atrás. Esta manifestação e a a razão porque estamos milhares aqui hoje, é para dizer que isto não é suficiente, e hoje é sobre lançar a narrativa que até 2015, o governo tem que fazer uma coisa diferente com a educação e com o emprego”. As próximas eleições no Reino-Unido serão em 2015.

Vemos nesta situação um paralelo evidente com a situação em Portugal. Da mesma maneira que a liderança da NUS quis desviar os estudantes do centro de poder, o Parlamento, os organizadores da maior manifestação em Portugal desde a década de setenta que aconteceu no dia 15 de Setembro de 2012, o grupo intitulado ‘Que se Lixe a Troika’, organizou a manifestação de forma a que esta se afastasse da Assembleia da República. Os manifestantes, chegando à Praça de Espanha, decidiram espontaneamente ir para trás em direção à Assembleia. Os organizadores da manifestação que era suposto ter acabado na Praça de Espanha recusaram-se a disponibilizar o seu equipamento de som para que os manifestantes pudessem falar, e recusaram-se igualmente a deixar que outros manifestantes usassem o seu sistema de som para anunciar a continuação da manifestação até a Assembleia. Mesmo assim, dezenas de milhares foram espontaneamente até a Assembleia.

Manifestantes à frente à Assembleia da República, 15 de Setembro de 2012
Este é um exemplo onde o Guardião do Portão se esqueceu de fechar o portão à chave. Deve ter levado um grande raspanete nesse dia. A próxima manifestação que organizaram, não foi uma manifestação, foi um concerto, não vá a mesma coisa acontecer duas vezes. Mas lá foram obrigados, por causa da iniciativa do Cerco ao Parlamento de dia 15 de Outubro, a voltar a organizar manifestações, até porque para organizar festas já existe a Crew Hassan (que por acaso é o colectivo a quem pertencia o sistema de som que os Anti-Troikianos julgaram ser demasiado honrado para ser utilizado pela plebe). Portanto, com alguma relutância, organizaram uma manifestação para o dia 31 de Outubro, dia que marcava a votação do orçamento de Estado 2013, tendo duas semanas atrás recusado participar na organização da manifestação que marcou a entrega do orçamento, o dito ‘Cerco’. Ter que organizar a manifestação de dia 31 de Outubro foi sem dúvida uma grande maçada, visto que a ‘luta é alegria’ e que se faz melhor a ouvir música e de cerveja na mão. Preferiam certamente continuar a organizar concertos para dar aos heróis da falsa resistência mais uma oportunidade para gozar com os ativistas políticos de esquerda em particular e com o ativismo político em geral. Não que não mereçam ser gozados de vez em quando, como este artigo demonstra 

A verdadeira luta política que constatamos diariamente não é entre a população e os governantes, pois estes vivem em mundos separados, têm vidas diferentes e habitam espaços distintos. Entre a população e os governantes existe um cordão policial que impede que haja sequer qualquer contacto, quando mais conflito real. Mas entre os governantes e os governados não existe somente o cordão policial. Por vezes existem partidos, sindicatos, ‘movimentos sociais’, poças, buracos, fossas, portas, portões e portinhas, todo um exército de mecanismos que restringem em todas as escalas, a todos os níveis e em todas as áreas a implementação da vontade popular. Mas lentamente muitos sindicatos, movimentos sociais e até partidos têm vindo a radicalizar o seu discurso. Às vezes por ideologia, às vezes por estratégia. O mais importante no futuro próximo será assegurar a existência de organizações verdadeiramente capazes de ser o veículo através do qual o sentimento popular se transforma em ação direta, sejam estas organizações partidos, sindicatos ou movimentos sociais. É essencial parar a criminalização do protesto, a marginalização dos movimentos sociais radicais e a normalização da perseguição política, três factores que infelizmente cada vez mais se fazem sentir em Portugal.

Só não está radicalizado quem não está a prestar atenção, e só os radicais representam o sentimento generalizado de revolta. A subida da contestação é visível e é diária, e a subida da repressão também. Os oprimidos estão a acordar e os opressores estão com medo. Agora só falta escolher um lado e ignorar o Guardião do Portão.

João Silva Jordão