O filme Zeitgeist, lançado em 2007, teve muito mérito no começo do fenómeno de média alternativos na Internet. Como documentário, a sua estrutura era diferente, apelativa. Em vez de ter uma narrativa coesa, seguindo um eixo central, o filme divide-se em três partes, cada uma delas supostamente desconstruindo uma crença fundamental da sociedade atual. Primeiro, afirma diretamente que a narrativa sobre a vida de Jesus (que a paz esteja com ele) foi inspirada por mitos antigos, e implicitamente leva o espetador a acreditar que Jesus (q.a.p.e.c.e.) não existiu. A segunda parte afirma (corretamente) que o sistema financeiro é sustentado pela desonestidade e ignorância popular sobre os mecanismos de emissão de moeda e crédito, enquanto que a terceira parte demonstra que os ataques do 11 de Setembro de 2001 foram perpetrados com a conivência do governo dos Estados Unidos da América. Sendo que os dois últimos temas foram cobertos e explicados de forma muito mais extensa por outros documentários, como o Money as Debt e o Loose Change respetivamente, foi a primeira parte que lançou o maior debate. O filme manipula informação para estabelecer paralelos inexistentes entre a história de Jesus (q.a.p.e.c.e.) e de Horus, Buddha e Dionísio, inspirando-se das ideias de escolas luciferianas como a Sociedade Teosófica, nomeadamente da autora Acharya S que cita extensivamente Blavatsky, a fundadora da Sociedade Teosófica.

O segundo e terceiro filme da série Zeitgeist porém revelaram as verdadeiras intenções do autor, propondo um projeto obscuro e repleto de simbolismo esotérico como a solução para todos os problemas da humanidade, o Projeto Venus (Venus Project). Por exemplo, depois de preparar os espetadores para aceitar o facto que são necessárias mudanças radicais nos sistemas de emissão de moeda, e depois de afirmar, corretamente, que um sistema centralizado de emissão de moeda resulta necessariamente em maior corrupção e abuso de poder, propõe que toda a economia mundial, incluindo a totalidade das transacções, seja gerida por um só computador que irá regular e avaliar a sustentabilidade e lógica das práticas económicas. Por muito interessante que isto possa parecer, a construção de tal sistema seria um mecanismo de repressão e controle centralizado, aberto a corrupção, manipulação e abuso. Porém, o Zeitgeist utiliza a maquina e o computador como a representação de uma entidade neutra, científica, incorruptível, esquecendo-se de lembrar que os computadores são programados por humanos, e que portanto não deixam de ser a momento algum um espelho para ideologias humanas. Ainda para mais, um sistema económico onde todas as transações só podem avançar depois de terem sido validadas por um computados central seria altamente opressivo e constrangedor, opressão esta que o movimento Zeitgeist defende em nome da ‘optimização da utilização de recursos’.

E este é um dos muitos exemplos em que o Projeto Venus faz alusões de caracter teológico. O nome Venus é muitas vezes associado a Lucifer. É igualmente uma parte integral da profecia Cristã e Islâmica que o Anticristo (‘Dajjal‘ na tradição Islâmica), um futuro ditador tirânico, vai implementar um sistema onde qualquer opositor será excluído do sistema comercial, como é mencionado no Livro da Revelação, Capitulo 13. A proposta da implementação de um sistema central de controle do comércio global defendida pelo terceira parte do filme Zeitgeist tem claros paralelos com profecia Bíblica em geral e com a escatologia Cristã em particular:

Bíblia, Livro da Revelação, Capitulo 13, versos 11-18
Bíblia, Livro da Revelação, Capitulo 13, versos 11-18
O Guru do Projeto Venus, Jacques Fresco
O Guru do Projeto Venus, Jacques Fresco

O Projeto Venus propõe igualmente que todas as cidades devem ser construídas  de uma maneira que promova a sustentabilidade, ou seja, que todas sejam perfeitamente radioconcêntricas. Esquece-se de mencionar que o projeto para a cidade perfeita do Projeto Venus é um plágio, ou seja, foi roubada de vários urbanistas e utopistas do passado, sendo que não contem nada de novo, como por exemplo a Cidade do Sol de Campanella, o plano para Palmanova de Scamozzi, entre outros. É igualmente uma ideia ridícula pela simples razão que a adaptação de todas as cidades do mundo para coincidirem com esta disposição seria materialmente e financeiramente impossível, e diga-se de passagem, profundamente insustentável. Ainda mais, o planeamento centralizado está na fonte de muitos dos problemas urbanos com que nos deparamos hoje, pelo que ao planeamento e construção incremental, participada e orgânica surge cada vez mais como a solução para resolver os conflitos de interesse inerentes a qualquer política de planeamento, ordenamento e uso de solos. Porém o Projeto Venus não aplica qualquer conceito democrático ao urbanismo. Surge igualmente no urbanismo moderno o policentrismo como um fator ideal da harmonia social e resiliência da cidade, conceito esse completamente contrário ao centralismo absoluto da cidade ideal do Projeto Venus.

Um mapa da cidade de Palmanova, cidade projectada por Vincenzo Scamozzi
Um mapa da cidade de Palmanova, cidade projectada por Vincenzo Scamozzi
A cidade de Palmanova, Itália, mantém a estrutura do desenho original, radioconcêntrica, mas ainda com a forma octogonal
A cidade de Palmanova, Itália, mantém a estrutura do desenho original
A Cidade do Sol, de Campanella, é um exemplo do urbanismo utópico, onde o simbolo ancestral do Sol representa a natureza da cidade perfeita
A Cidade do Sol, de Campanella, é um exemplo do urbanismo utópico, onde o simbolo ancestral do Sol representa a natureza da cidade perfeita
Diferentes concepções Renascentistas da cidade ideal: 1. La Sforzinda by Filarete (1460 – 1465); 2. Fra Giocondo (Giovanni of Verona), c. 1433 - 1515 ; 3. Girolamo Magi (or Maggi) (c. 1523 – c. 1572) (1564); 4. Giorgio Vasari (1598); 5. Antonio Lupicini (c. 1530 – c. 1598); 6. Daniele Barbaro (1513 – 1570); 7. Pietro Cattaneo (1537 – 1587); 8/9; Francesco di Giorgio Martini (1439 – 1502).
Diferentes concepções Renascentistas da cidade ideal: 1. La Sforzinda by Filarete (1460 – 1465); 2. Fra Giocondo (Giovanni of Verona), c. 1433 – 1515 ; 3. Girolamo Magi (or Maggi) (c. 1523 – c. 1572) (1564); 4. Giorgio Vasari (1598); 5. Antonio Lupicini (c. 1530 – c. 1598); 6. Daniele Barbaro (1513 – 1570); 7. Pietro Cattaneo (1537 – 1587); 8/9; Francesco di Giorgio Martini (1439 – 1502).
A utopia radioconcêntrica de Sir Ebenezer Howard, do livro 'Garden Cities of To-morrow' (1902)
A utopia radioconcêntrica de Sir Ebenezer Howard, do livro ‘Garden Cities of To-morrow’ (1902)
A cidade ideal do Projeto Venus
A cidade ideal do Projeto Venus, um plagio (sobretudo, mas não só) das utopias urbanas Renascentistas. É uma cidade radioconcêntrica, completamente centralizada, sem núcleos secundários, com um plano que deve depois ser imposto sobre o território, com uma zonificação rígida e um apelo estético questionável. Urbanisticamente falha em tantos aspectos que uma crítica aprofundada à ‘cidade Venus’ seria um exercício muitíssimo interessante pois permitiria abordar alguns dos erros mais comuns no estudo e prática do planeamento urbano.

As soluções do Projeto Venus e o seu veículo de marketing principal, a série de filmes Zeitgeist, são tão isoladas da realidade que no Zeitgeist 2 propõe-se uma sociedade em que ninguém trabalha, sendo todo o trabalho feito por máquinas, e só no Zeitgeist 3 é que se lembraram que as máquinas precisam de ser concebidas por humanos, e que o seu funcionamento depende de manutenção constante.

Exatamente da mesma forma que os sucessivos filmes Zeitgeist tinham a tendência para ter um diagnóstico relativamente bom seguido de soluções que seriam, se aplicadas, absolutamente catastróficas, o filme do Zeitgeist Portugal, O Dinheiro à Grande e à Portuguesa, propõe uma série de ajustes ao sistema atual que em vez de promover a democracia, dariam ainda mais instrumentos de repressão ao aparato do Estado.

Depois de começar de uma maneira que leva o espetador a questionar a natureza do Estado, o filme ‘O Dinheiro à Grande e à Portuguesa’ chega a conclusões que não só iriam perpetuar o sistema atual, como iriam aprofundar muitas das suas tendências mais negativas. Sob o pretexto da proposição de um sistema democrático verdadeiro, defende que o ato eleitoral deve ser limitado a ‘cidadãos informados’ sobre a matéria em questão, propõe a informatização acrescida da participação cívica, uma maior complexidade na análise da opinião de cidadãos, o banimento de partidos políticos, entre outras péssimas ideias.

Para concretizar os objetivos grandiosos a solução principal proposta é a informatização do processo democrático. O documentário fornece exemplos de tais mecanismos que já estão em operação, como portais municipais de disseminação de informação, sites do governo que apelam à ‘participação’ cidadã, entre outros exemplos. Porém, a internet não chega a toda a gente, a uma democracia baseada na informática excluiria uma grande parte da população idosa, assim como toda a população iletrada, cega, etc. E sobretudo, o acesso e conteúdo da Internet é muito mais restrito e controlado do que a maioria da população se apercebe. Em casos de ’emergência nacional’ já se constataram apagões informáticos como quando o governo de Mubarak no Egito cortou as telecomunicações e a Internet para tentar reduzir a capacidade organizativa da população. Mas o povo Egípcio é muito menos dependente na comunicação que depende de tecnologia que pode ser bloqueada pelo Estado, pelo que esta medida não surtiu efeito. Este exemplo demonstra que a população não pode depender de meios informáticos para se organizar, e neste sentido deve resistir à tentação de restringir o ativismo ao espaço virtual. A verdadeira mudança acontece no e através do espaço real. As verdadeiras mudanças acontecem na rua, sendo o espaço virtual um mero instrumento secundário.

Muitas vezes, o ‘O Dinheiro à Grande e à Portuguesa’ limita-se a fazer críticas óbvias ao sistema, propondo formatos que já existem. Por muita boa vontade que os produtores do filme possam ter tido, tanto o ‘O Dinheiro à Grande e à Portuguesa’ como o Projeto Venus propõe medidas que causariam problemas ainda mais profundos para a democracia, e mais precisamente, levariam à construção de um aparato informático que em nome da democracia constituiria um potentíssimo mecanismo de vigilância, corrupção e despotismo. A informatização acrescida da vida humana através da recolha de informações sobre todos os aspetos da vida dos cidadãos, da vigilância da produção e acesso a informação assim como a popularização de sistemas de voto digitais surgem como elementos fundamentais na emergência do Estado Policial moderno. As propostas do Zeitgeist são mais do que utópicas- se implementadas, fornecem caminhos reais para a aproximação ainda maior à distopia totalitária.

João Silva Jordão

Nota Adicional (Agosto 2013): O excerto do filme Zeitgeist que propõe que a economia mundial, sobretudo o comércio, seja dirigida por um super computador pode ser visto aqui (em Inglês), a partir do minuto 8:00.

Nota Adicional (Setembro 2013): O filme Aurora 3 parece ter sido retirado da internet, pelo que a menção e a ligação ao mesmo foi substituído por outra produção do movimento Zeitgeist Portugal, ‘O Dinheiro à Grande e à Portuguesa’.