Hadith Abu Dawud 4 111

O Conselho de 'Segurança' da ONU à volta de uma mesa
O Conselho de ‘Segurança’ da ONU à volta de uma mesa

O documento interno que revelou que o exército Americano apela no seu material de formação a uma política de ‘Guerra Total’ contra o Islão, comtemplando inclusivamente o bombardeamento nuclear de Meca e de Medina, as duas cidades mais sagradas para os muçulmanos, apenas confirmou o que muitos muçulmanos e alguns não-muçulmanos já sabiam- O Bloco Ocidental, liderado pela nação dos Estados Unidos da América e operacionalizado pela NATO, adoptou, através da sua suposta ‘Guerra ao Terror’, uma política para com os países muçulmanos que só tem duas vertentes: o domínio ou a invasão. Países governados por políticos e reis corruptos e subservientes, como a Arabia Saudita, o Qatar, o Bahrain, o Kuwait e Marrocos (todos os cinco albergam bases Americanas, e todos os cinco são monarquias), estão a salvo de qualquer invasão na condição de cooperarem (ou seja, obedecerem) militarmente, politicamente e economicamente. Quanto se trata de Estados menos subservientes (cada vez mais escassos, sendo o principal adversário da NATO a República Islâmica do Irão), o Bloco Ocidental tenta subverter o respetivo Estado, assassina líderes políticos, envia tropas especiais e financia dissidentes internos. Se isto não funcionar, procede a uma invasão militar, ou directamente, ou indirectamente através de ‘proxy agents’. Podemos portanto dizer conclusivamente que a ‘Guerra ao Terror’ é e foi desde o inicio uma política de guerra total contra o Islão e os muçulmanos em particular, e para com os povos do Sul em geral.

Algumas das bases militares dos EUA no Médio Oriente
Algumas das bases militares dos EUA no Médio Oriente

O ultimo exemplo desta política é a invasão do Mali por Forças Francesas (país que colonizou o Mali, impondo o Francês como língua oficial) aliadas com forças aéreas de países da União Europeia por enquanto anónimos, com a bênção do Presidente do Mali. O objetivo desta invasão é de lutar contra dissidentes Tuaregues. O Conselho de ‘Segurança’ das Nações Unidas aprovaram unanimemente uma intervenção no país, em Julho de 2012. Os Tuaregues, como os Curdos, são uma etnia sem Estado cujas terras foram divididas entre diferentes países, e são constantemente oprimidos pelos Estados que atropelaram as suas terras. Mais uma vez, alegadas ligações entre os militantes Islâmicos do Mali e a Al-Qaeda assim como alegados massacres cometidos estão a ser utilizadas para vilificar os militantes e justificar uma intervenção militar.

Porém, a verdadeira questão em relação à intervenção militar no Mali deveria ser se esta terá a capacidade de promover a paz e a prosperidade para a população do Mali. Será uma intervenção no Mali a melhor forma de assegurar a proteção da população? O passado recente demonstra-nos precisamente o contrário. Uma invasão estrangeira, e sobretudo aquelas lideradas pelo Bloco Ocidental através da NATO e das Nações Unidas, têm resultado inevitavelmente e tragicamente no alastramento da zona de conflito, uma subidas das mortes e das lesões, assim como maior empobrecimento e sofrimento para a população, sobretudo as mulheres, as crianças e os idosos. Vejamos alguns dos resultados de intervenções parecidas em países de maioria islâmica, todos sob o pretexto da promoção da democracia, da luta contra a Al-Qaeda ou de um outro grupo terrorista qualquer, e a proteção da população:

Afeganistão– Invadido em 2001, o conflito continua em 2013. São 11 anos de conflito, sendo esta a guerra a de maior duração do século XXI superando a guerra mais prolongada do século XX (e só estamos em 2013), o conflito entre o Iraque e o Irão, que durou 8 anos (onde o Iraque, a força invasora que começou o conflito, e naquela altura ainda liderado por Saddam Hussein, recebeu apoio constante dos Estados Unidos da América). 2,000 militares Ocidentais mortos, 18,000 feridos. Cerca de 28,000 civis mortos (se adicionarmos as vítimas diretas das operações militares com os que morreram como resultado de emigração forçada e da fome. As mortes de soldados Americanos subiu exponencialmente entre 2001 e 2011, demonstrando claramente a intensificação progressiva do conflito, sendo que em 2012 baixaram ligeiramente.

Mortes de soldados Americanos por Ano no Afeganistão desde 2011 até Dezembro de 2012
Mortes de soldados Americanos por Ano no Afeganistão desde 2011 até Dezembro de 2012

Iraque– Invadido em 2003, as estimativas das mortes civis variam entre 110,000 e mais de um milhão, sendo o número de um milhão o mais correto se quisermos avaliar o resultado da invasão militar no seu todo. Ao contrário do que foi noticiado, as tropas Americanas não abandonaram o país, têm pelo menos cerca de 5,000 forças privadas, muitos deles ex-membros do exército e contratados por empresas privadas. Uma destas empresas é a infame Blackwater, controlada por fanáticos Cristãos que se identificam com os Templários e que defendem uma política de Cruzadas modernas contra o Islão. Os EUA têm igualmente uma cooperação próxima  com o exército Iraquiano.

Paquistão– O Paquistão tem sido o território preferido para a experimentação de drones não pilotados, um utensílio particularmente perverso porque aproxima o acto de assassinar com um jogo virtual, alienando eticamente o assassino facilitando portanto a agressão militar. Cerca de 40,000 civis e militares morreram até agora na ‘Guerra ao Terror’ levada a cabo pelo governo Paquistanês, assistido pelo exército Americano. O facto das estimativas da CIA apontarem para entre 2,000 mil e 3,500 mortos por drones não pilotados demonstra a natureza muito pouco seletiva desta campanha. Até agora o resultado tem sido, como seria de esperar, um acréscimo na revolta da população Paquistanesa para com os EUA e traumas permanentes, umas das razões pela qual uma escalada do conflito é provável.

Um operador de drones-não pilotados, repare-se no joystick, utilizado para jogos virtuais
Um operador de drones-não pilotados, repare-se no joystick, utilizado para jogos virtuais
Paquistaneses a protestar contra os ataques de drones
Paquistaneses a protestar contra os ataques de drones, Multan, Paquistão, 9 Fev. de 2012

Este video de recrutamento para o exército do Reino-Unido mostra um drone a ser pilotado com um comando de uma consola de jogos virtuais para crianças e adolescentes, a Xbox (segundo 00:12-00:15):

Líbia– De todos estes conflitos, a invasão da Líbia foi aquela que foi mais encoberta com mentiras, porque nem sequer é considerada como uma invasão estrangeira, é ainda vista por muitos como uma guerra civil. A verdade é que foi o resultado de invasão de insurgentes vindos de todo o Médio Oriente aliados com forças especiais (no terreno) e forças aéreas da NATO na luta contra o regime de Ghaddafi, conflito o qual posteriormente originou uma guerra civil. De Fevereiro a Abril de 2011, a Líbia era um dos assuntos mais mediáticos à escala global. Desde o assassinato de Muammar Ghaddafi, raramente se ouve falar deste país, agora em estado de guerra civil e instabilidade económica. A invasão da Líbia resultou em cerca de 30,000 vítimas e 50,000 feridos até Agosto de 2011, sendo o número de vítimas da guerra civil incerto. A Líbia pós-Ghaddafi foi, até agora, um desastre para a população. A queda de Ghaddafi foi instrumental por muitas razões, umas delas sendo que sem Ghaddafi, a União Africana é muito mais suscéptivel a ser instrumentalizada pela NATO, como se pode constatar, por exemplo, através do apoio desta organização nas futuras operações no Mali e nas operações presentes no Uganda (ver mais abaixo).

Síria– Exatamente como na Líbia, somente que nesta caso, de uma forma mais lenta e numa escala maior, o Bloco Ocidental está a financiar e armar dissidentes internos na Síria, importando igualmente insurgentes de outros países como a Turquia, nomeadamente alguns que acabaram de participar na guerra contra Ghaddafi. O apoio do Bloco Ocidental aos dissidentes armados só está a piorar a situação, resultando como previsto num escalamento da guerra e subida da violência. Até agora previsões apontam para cerca de 60,000 mortes civis,  se bem que temos que considerar que este mesmo número é questionável, e é utilizado para legitimar uma eventual invasão direta da NATO, a qual resultaria inevitavelmente numa subida exponencial das mortes. Os ditos ‘rebeldes’ também são culpados de massacres e todo o tipo de atrocidades. Exatamente como no Iraque, a NATO está presentemente a propor mais uma invasão utilizando as vítimas do regime de Bashar al-Assad como pretexto.

Existem igualmente frentes ativas da ‘Guerra ao Terror’ no Iémen, no Kashmir, na Costa do Marfim e na Somália, entre outros países.

O caso da intervenção dos EUA no Uganda, que só tem uma pequena minoria Islâmica (cerca de 10%) é particularmente interessante porque utilizou um filme supostamente ‘independente’, o golpe propagandístico conhecido por ‘Kony 2012’, para promover a popularidade da sua presença militar neste país. A presença militar Americana em África está a crescer consideravelmente sob o comando da AFRICOM (United States African Command), muitas vezes sob a alçada de projetos humanitários, como neste caso, na República do Congo.

Todos os números de mortes e feridos vêm de fontes Ocidentais pelo que algumas destas estimativas devem estar muito abaixo da realidade. Como disse o general dos EUA Tommy Franks em 2003, no exato momento em que o auge da campanha de bombardeamento no Afeganistão e no Iraque coincidiram, ‘We Don’t Do Bodycounts’, ou seja, ‘Nós Não Contamos os Corpos (das vítimas)’.

A atitude para com a população civil dos países que a NATO invade não mudou de todo. Pelo contrário. Infelizmente, a Guerra Total parece estar somente a começar.

João Silva Jordão