O secretário de Estado Adjunto do Primeiro-Ministro, Carlos Moedas (E) acompanhado pela ex-dirigente do PSD, Sofia Galvão (D), durante a sua intervenção na sessão de abertura da Conferência "Pensar o futuro - um Estado para a sociedade", no Palácio Foz, em Lisboa, 15 janeiro 2013. JOSÉ SENA GOULÃO / LUSA PORTUGAL CONFERÊNCIA "PENSAR O FUTURO - UM ESTADO PARA A SOCIEDADE"
O secretário de Estado Adjunto do Primeiro-Ministro, Carlos Moedas (E) acompanhado pela ex-dirigente do PSD, Sofia Galvão (D), durante a sua intervenção na sessão de abertura da Conferência “Pensar o futuro – um Estado para a sociedade”, no Palácio Foz, em Lisboa, 15 janeiro 2013. José Sena, Lusa Portugal

Como é argumentado no artigo ‘Somos Governados por Políticos ou Conspiradores?’, a classe política em geral, e sobretudo os governantes de Portugal cada vez mais demonstram ao mesmo tempo uma falta de respeito pela população e um medo tremendo da população. O secretismo da conferência organizada pelo PSD que tem por tema a reforma do Estado social em Portugal, é o ultimo exemplo de como o medo da população, o elitismo e o secretismo resulta num divórcio ainda maior entre a classe política e a população, ofuscando as intenções do governo para com assuntos que afetam a vida de todos. A decisão de impedir aos jornalistas a captura de imagens, de som e de declarações foi  criticada pela Sindicato de Jornalistas que qualificou a atitude da organização de ‘absurda’ e ‘ilegítima’. Diga-se de passagem que se esta conferência quisesse verdadeiramente falar sobre o Estado social teria convidado um dos contribuintes do livro ‘Quem Paga o Estado Social em Portugal‘, que argumenta que os trabalhadores pagam mais em impostos do que recebem em serviços do Estado, como demonstra a Raquel Varela, coordenadora do livro, em várias entrevistas. Mas esta conferência parece ter outras intenções, como está implícito no seu secretismo.

A organização diz que o evento junta governantes e a ‘sociedade civil’, que quer ‘discutir com todos‘, e a organizadora diz que “Esta é uma conferência que vive da profundidade que for capaz de alcançar, da liberdade que o debate tiver. As conclusões a que chegar, são conclusões que dependem absolutamente disso. Estar a fazer isto debaixo de gravações de câmaras de televisão que podem condicionar os participantes, julgo que seria um mau serviço.” A organizadora depois diz que os governantes devem ser escrutinados, porém, os intervenientes que não são do governo preferem anonimato. E porque será isto? Pela simples razão que o saboteamento do Estado social beneficia todo o tipo de interesses privados, muitos deles interesses geridos por ex-governantes. Os hospitais privados, as escolas privadas, as empresas de água privadas (no caso da privatização da água), entre outras, têm muito a ganhar com a redução de serviços públicos.

Ainda para mais, se esta conferência foi uma tentativa de ‘juntar todos’ como afirma a organização, porque razão é que um representante dos feirantes (que têm vindo a protestar contra as medidas que restringem a sua capacidade de prosseguir com a sua profissão) foi impedido de comparecer? É sem dúvida nenhuma uma conferência da elite para a elite.

Feirantes a Manifestarem-se em frente à conferência do PSD (Foto: Sol.pt)
Feirantes a Manifestarem-se em frente à conferência do PSD (Foto: Sol.pt)

A organização definiu as regras da cobertura mediática da seguinte maneira : “Não haverá registos de imagem e som. A permanência dos jornalistas é permitida. Não haverá (reprodução de) nada do que seja dito sem a expressa autorização dos citados.” Essencialmente, a regra aplicada na conferência do PSD é uma versão da ‘Chatham House Rule‘, desenvolvida pela organização ultra-elitista, imperialista e elitista, a infame Chatham House, e é aplicada ‘de forma a dar anonimato aos intervenientes para promover a abertura e a partilha de informação’. Essencialmente, é uma regra que fornece mais liberdade aos intervenientes, visto que o que quer que eles digam não pode ser legalmente associado a eles. Assim, sem escrutínio, sem conhecimento público, sem disseminação de informação, os que falam não têm que se preocupar com a opinião do público, e podem, neste caso, falar à vontade sobre privatizações de serviços, venda de património, subida de preços de serviços, aumento de taxas moderadoras, aumento das portagens. Enfim, tudo aquilo a que nos têm acostumado, somente desta vez dito com honestidade.

É particularmente interessante constatar que as palavras da própria organização revelam que os intervenientes necessitam de protecção e anonimato para serem capazes de se exprimir com honestidade.

Esta modalidade de conferência é detestável em si. Mas numa conferência onde o tema abordado é o Estado social, e em particular, sendo esta organizada por um partido que chefia um governo que tem atacado os direito sociais e o Estado social de forma inédita no pós 25 de Abril, o secretismo em questão deveria ser particularmente preocupante. Este governo está claramente a desenvolver uma estúpida devoção pelo segredo, e esta devoção só irá alienar ainda mais a população das instituições de representação ‘democrática’. Quem fica a perder, claro, é a própria população.

Afinal, como disse a organizadora, a presença de jornalistas iria restringir os intervenientes e isso seria ‘um mau serviço’. Esta situação demonstra igualmente que a pressão que os movimentos sociais e a sociedade civil vai aplicando sobre os governantes, ao criticar, partilhar, debater, e desconstruir as declarações dos governantes sobre o Estado social não só preocupa o governo, como obriga o governo a organizar eventos, como este, que demonstram a sua verdadeira natureza. Têm medo da população, são elitistas e portanto refugiam-se no secretismo. Eles não gostam de ser criticados, não gostam de ver as suas mentiras desconstruidas, nem sequer gostam de ver as suas palavras reproduzidas.

No primeiro dia, foram os feirantes a manifestarem-se à frente à conferência. No segundo dia (16 de Janeiro de 2013), será o Movimento Sem Emprego e outros movimentos sociais. O evento facebook está acessível aqui.

João Silva Jordão