“Pois, que adiantará ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” Mateus 16:26

No plano político, sempre me tentei especializar na batalha pelas mentes das pessoas. Sempre acreditei que a consciencialização era a frente principal. Sempre acreditei que se a maioria das pessoas se revoltasse, se somente a população se apercebesse da sua condição de escravatura, que a libertação pela parte da população oprimida dos mecanismos de opressão se seguiria naturalmente.

Mas tenho a certeza agora que a consciencialização não chega (se bem que é uma parte essencial). A revolta já é generalizada, por muito que os mais revoltados queiram acreditar que fazem parte de uma vanguarda iluminada, que tenta, com sacrifício pessoal e elevados custos pessoais, acordar a população hipnotizada.

A verdadeira dificuldade tem sido, porém, operacionalizar a revolta para a tornar em mudança verdadeira. A conclusão é óbvia e difícil de aceitar- escrever artigos não chega, espalhar informação não chega, convencer os amigos e familiares não chega. Portanto tento, sempre que possível, levar a minha revolta à rua (ao ponto que, quando não o faço, ou me dizem que dão pela minha falta ou começam a surgir comentários indiretos algo insultuosos que interpretam a minha ausência como boicote). Mas as manifestações também não têm sido suficientes para efetivar uma mudança real. O sistema já aprendeu como lidar com a consciencialização, com a revolta (no foro da opinião pública), e já aprendeu a lidar com as manifestações relativamente bem (se bem que tenta reprimir os três factores dentro do possível, sobretudo as manifestações, provando que os três e sobretudo o ultimo são um incómodo muito grande para o sistema, e portanto, permanecem instrumentos fundamentais e indispensáveis na luta contra a opressão). Pela primeira vez na minha vida estou com poucas ou nenhumas ideias práticas. Tenho convicções ideológicas, uma panóplia de ajustes ao sistema que gostaria de ver, tenho muitas, mas muitas reivindicações. Mas maneiras de as aplicar, métodos de como as operacionalizar, nestes pontos essenciais, estou em baixa de forma. Penso que estamos todos, ou quase.

Este sistema é magistral a construir becos sem saída. Penso que tenho que ir meditar numa montanha uns dias, eliminar o barulho do sectarismo, do tribalismo, do ódio incompreensível entre amigos e camaradas, da desconfiança generalizada, a ver se quando volto tenho um contributo importante a dar. A única solução que tenho, por enquanto, é tentar ser mais tolerantes com os meus companheiros de batalha. Tentar refletir sobre o comportamento que gostaria de ver nos governantes.

O Castelo da Caverna, Margat, Síria
O Castelo da Caverna, Margat, Síria

A classe dominante está podre. Sem dúvida. Mas parece-me que a podridão dos governantes nos está a infectar mais do que nos apercebemos, mais do que estamos prontos a admitir. Vejo-me demasiadas vezes a adoptar atitudes que eu próprio detesto quando as identifico noutras pessoas. Estarei a ir longe demais se disser que o que nos falta não é pureza ideológica, nem unidade política compulsiva, nem um muito menos um contingente maior, mas o que nos falta de facto é virtude, ou seja, qualidades humanas verdadeiras? Paciência, calma, generosidade, uma boa palavra para quem nos insulta, um conselho de amigo para quem nos espezinha, um sorriso para quem nos olha como quem preferia que não existíssemos?

Por enquanto ainda me sinto como um espectador que vê, praticamente impotente, o desenrolar de uma peça de teatro sinistra cujo guião foi escrito há séculos atrás. Não quero com isto desmotivar a malta mais combativa, nem muito menos os que vão inevitavelmente entrar para o combate brevemente. Pelo contrário. Nunca, mas nunca estive mais motivado do que estou hoje. Mas um pouco de autocrítica nunca fez mal a ninguém.

João Silva Jordão