Os marxistas Ocidentais demasiadas vezes utilizam a suposta luta pelo direito dos trabalhadores para infiltrar e tentar evangelizar os povos do Sul. Sob o pretexto de ensinar os povos do Sul a compreender a luta de classes, instrumentalizam causas como aquela pela autodeterminação do povo Palestiniano para tentar, de uma forma paternalista e arrogante, do topo das suas torres de marfim, sabotar as culturas e religiões indígenas de modo a impor a sua própria visão do mundo. Não foi afinal esta a dinâmica do processo colonialista? Onde uma população Ocidental, usufruindo de avanços científicos e tecnológicos provenientes dos méritos e descobertas dos povos do Sul, exploraram países estrangeiros de modo a adquirir uma posição de hegemonia política?

A solução para esta profunda contradição passará pela relegação dos instrumentos de luta contra a opressão para segundo plano, concentrando-nos com o eixo principal, a luta em si, ou seja, a luta contra a injustiça sob todas as suas formas. Os objectivos muitas vezes perdem-se entre os métodos, e os métodos subsequentemente são corrompidos pelas sucessivas tentativas de ganhar posição política, de aglomerar (ou até capitalizar, acumular) poder de ação para depois, eventualmente, hipoteticamente, quem sabe um dia, poder ajudar as ‘classes trabalhadores do Sul’. Mas o respeito por estas classes, a sua cultura, as suas religiões, as suas formas de viver, devia ser um ponto de partida- infelizmente ainda não o é. Para o poder vir a ser temos todos colectivamente de parar de criticar sistemas de crença que não compreendemos e que nos recusamos a estudar em profundidade.

A começar pelo Islão. Muitos marxistas deviam ler o Corão antes de avançar para uma critica mecânica e repetitiva do suposto dogmatismo exagerado da população muçulmana. Deviam estudar a contribuição que o Islão e os muçulmanos deram para o desenvolvimento do sistema empírico antes de criticar a alegada cegueira provocada pela fé. Deviam estudar o contributo Islâmico para o pensamento secular (ver por exemplo o contributo de Ibn Rushd, cujo trabalho é tão brilhante que os Ocidentais tiveram que lhe inventar um nome Latim- Averroes) antes de criticar a suposta falta de separação entre Estado e Igreja (ou neste caso, entre Estado e Mesquita). Sem os contributos Islâmicos para a matemática, empirismo, ciência política, jurisprudência, química, biologia, medicina, arquitectura, sociologia, urbanismo, astronomia, entre outros campos de conhecimento, o desenvolvimento de filosofias e ideologias que hoje se vêm como sendo superiores a todas as formas de ‘religiões’ (termo que muitas vezes não querem nem conseguem definir) por e simplesmente não teriam sido possíveis.

Mais grave ainda, sob o pretexto que a única lente analítica adequada para a compreensão do mundo em que vivemos é a consciência de classes (em termos específicos) ou a dialéctica marxista (em termos filosóficos), ignoram muitas vezes a que ponto a que a sua proveniência geográfica e a cultura predominante que os rodeia pela qual são inevitavelmente influenciados os infecta com um sentido de superioridade Eurocêntrico, cultivando um complexo (errado, injustificável e indefensável) de superioridade para com os povos do Sul, que são na sua grande maioria aderentes a religiões organizadas. Esta é uma das grandes contradições do pensamento Marxista moderno e dos seus aderentes. Diz-se e dizem-se defensores dos interesses dos povos do Sul, dizem-se anti-imperialistas, mas no fundo acabam por adoptar os mesmos erros dos seus predecessores Cristãos, somente que desta vez por não respeitar a religião dos povos indígenas que dizem defender e admirar. Agem muitas vezes como cavalos de Tróia na tentativa de impor a sua visão do mundo através da intriga e da desonestidade. Evangelizam, mas em vez de o fazer em nome de Jesus, fazem-no em nome de Marx, utilizando técnicas semelhantes aos seus antepassados.

Ibn Rushd, o padrinho do pensamento secular, assim
Ibn Rushd, o padrinho do pensamento secular, sendo igualmente um pioneiro na área da jurisprudência, matemática, medicina, física e astronomia, entre outros campos de conhecimento. Viveu na Andaluzia Islâmica no século XII.

Muitos dos aderentes destas filosofias Ocidentais, cuja génese dependeu completamente de méritos de religiões e filosofias do Sul, comportam-se como bastardos ingratos e arrogantes que nem sequer sabem de onde as suas crenças vêm, sem se aperceberem que as ideologias que tanto amam se construíram sobre os ombros de filosofias e religiões que detestam.

Adquirir conhecimento e proceder a uma análise séria, deve, em qualquer caso, preceder a ação decisiva e a crítica compulsiva. Neste ponto, os muçulmanos e marxistas estão, ou pelo menos deviam, estar de acordo.

João Silva Jordão