Padres Cananitas oferecem uma criança em sacrifício a Moloch, o Abominável
Padres Cananitas oferecem uma criança em sacrifício a Moloch, o Abominável

 A Barbaridade do ‘Processo de Consolidação Fiscal’ e a Eugenia em Curso

Empobrecimento. Baixa de salários. Aumento do desemprego, do desespero silencioso, de mortes por falta de atenção médica. Aumento dos suicídios. O governo, entretanto, assobia para o lado enquanto alega ser isento de culpas. Retirada de direitos essenciais, centralização de poder através da entrega de competências previamente sobre o controle público a estruturas burocráticas, tecnocráticas ou privadas. A implosão do Estado de Direito. A ressurgência do autoritarismo e o fortalecimento e expansão dos mecanismos de repressão.

A pretexto e através desta crise induzida, fraudulenta até ao tutano, os ricos e poderosos abusam do seu poder para consolidar a sua posição de dominância. Precipitam o problema através da manipulação dos sistemas de crédito que eles próprios controlam, e para resolver o problema que eles próprios fabricaram, dizem, incorretamente, sem vergonha, sem compaixão, sem argumentos válidos, que a austeridade é a única saída. E é assim que legitimam a usurpação do poder, é assim que convencem a população que a estão a oprimir para o seu próprio bem. É assim que os pastores corruptos convencem o rebanho que a sua escravidão é no seu melhor interesse.

A austeridade, por sua vez, não é somente eugenia laboral. É eugenia no verdadeiro sentido da palavra. Não é um sonho, é um pesadelo, e é real. É a aplicação do darwinismo social, altamente elitista, em que os mais poderosos ficam com mais poder e os mais fracos são sacrificados em nome da eficiência, da competitividade, em nome de uma qualquer mentira desde que esta qualquer mentira justifique toda e qualquer barbaridade.

A população, perdida e incapaz, acredita que os governantes querem o seu melhor. Afirma na sua ingenuidade que os seus governantes são incompetentes, não se apercebendo que estes são, pelo contrário, muitíssimo competentes. São competentes porque conseguem fazer exatamente o que tencionam fazer, e o que tencionam fazer não é ajudar a população, não é potenciar o desenvolvimento económico nem muito menos o desenvolvimento social. O que tencionam fazer, o que têm conseguido fazer, é perpetuar e aprofundar a exploração e a opressão, escondendo os seus crimes por detrás da camuflagem da beneficência, da incompetência, dos erros, das previsões falhadas, das metas não atingidas. Tudo vale, desde que a população continue a acreditar nas boas intenções dos que a governam. Os governantes, por sua vez, preferem ser vistos como incompetentes a serem vistos pelo que verdadeiramente são- tiranos, cobardes, mentirosos, criminosos. Adjetivos e insultos graves ficam pálidos perante tanta imoralidade, perante tanta má fé.

Em tempo de dificuldades acrescidas para a maioria da população, o debate relativo à natureza da nossa sociedade é intenso- muitos dizem que o fascismo está a voltar, outros dizem que o autoritarismo só está a ressurgir porque a população deu por adquiridos direitos que entretanto se esqueceu de defender. Mas uma coisa é certa- a austeridade, referida pelo poder instituído através do termo, do eufemismo, ‘processo de consolidação orçamental’, demonstra a barbaridade de todo o sistema político, social e económico sob o qual vivemos. Não é de agora. Não é uma fase. O sistema é como é e continua a ser como tem vindo a ser há muito, muito tempo. Somente estamos a viver num período onde a máscara caiu, e o sistema se mostra pelo que verdadeiramente é, e pelo o que vai continuar a ser enquanto não for derrotado.

Fritz Lang capturou melhor do que ninguém, na cena mais impressionante do clássico de 1927, Metropolis, o verdadeiro espírito do sistema político vigente:

É durante o presente período de austeridade que o sistema se revela por aquilo que verdadeiramente é- uma máquina diabólica, Moloch, o monstro que se alimenta dos humanos. Para sobreviver, esta máquina, na sua terrível fúria, fruto das suas contradições inerentes, demonstra a sua verdadeira natureza e assume a forma de entidade diabólica que se alimenta da carne humana. Para o fazer, sacrifica de uma maneira cíclica e ritualística a população de forma a perpetuar a sua abominável existência. Os agentes do sistema, os seus guardiões, os padres do sacrifício, levam os fracos para a boca do monstro que os devora com os seus dentes, que os queima pelo fogo, que os sufoca com o fumo. Insaciável por natureza, mas temporariamente apaziguado, o monstro retoma o seu disfarce de máquina benigna enquanto que a população, desesperada e submissa, se limita a contar as vítimas e a socorrer os feridos. Mas a população continua escravizada, continua moribunda. A sua condição é tão miserável que se contenta com esta pausa. Durante um breve período, estará a salvo da boca do monstro. Mas até quando? A qualquer momento, o monstro irá acordar da hibernação para nos devorar mais uma vez.

Este breve documentário sobre a história da eugenia tem alguns elementos centrais que nos permitem compreender a mentalidade que permeia a classe dominante que nos governa:

A austeridade desempenha um papel fundamental para a perpetuação e consolidação do domínio da classe dominante. Consolida o poder dos grandes bancos através de resgates e ao atacar e afundar os bancos médios e pequenos. Empobrece a maioria da população, baixa os salários, permite a retirada de direitos adquiridos ao longo décadas em somente alguns anos. Impede ou desencoraja os jovens de se procriarem, abranda a expansão urbana, por vezes até produzindo fluxos de ruralização. Aumenta o sentido de desespero, cultiva o sentimento de impotência.

A austeridade é como um apertão ao nosso pescoço. O ladrão, ameaça a vítima mas ao mesmo tempo diz que o assalto é para o seu bem. “Mãos ao ar! Os teus direitos, a tua carteira, a tua dignidade, ou a vida”. E a maioria, acredita, e abdica. Isto não é um desgoverno. Não é incompetência. É exploração esquematizada, é violência premeditada.

João Silva Jordão