Dois dias depois do golpe militar contra a Irmandade Muçulmana e o Presidente do Egipto, Muhammed Mursi, o país parece cada vez mais estar a entrar num periodo de possível guerra civil. Opositores da Irmandade, que receberam as notícias do golpe militar com festejos, e apoiantes da Irmandade que vêm o golpe como sendo um ataque à democracia e como sendo o ressurgimento do antigo regime de Mubarak, estão envolvidos em profundos e violentos confrontos um pouco por todo o Egipto, sobretudo em Cairo.

A praça Tahrir tem sido ao longo dos últimos anos, e sobretudo no principio de Julho de 2013, o palco de algumas das mobilizações mais numerosas da história da humanidade, primeiro com protestos contra o regime de Mubarak, acolhendo depois mobilizações de oposição e apoio a Mursi e o governo da Irmandade Muçulmana
A praça Tahrir tem sido ao longo dos últimos anos, e sobretudo no principio de Julho de 2013, o palco de algumas das mobilizações mais numerosas da história da humanidade, primeiro com protestos contra o regime de Mubarak, acolhendo depois mobilizações de oposição e apoio a Mursi e o governo da Irmandade Muçulmana

Desde as eleições de 2011, as primeiras eleições democráticas na história do Egipto, em que Mursi ganhou com 51% dos votos contra o candidato Ahmed Chafiq, o ex-Primeiro Ministro do regime de Mubarak, os Egípcios recomeçaram a mobilizar massivamente nas ruas para protestar contra aumentos do custo de vida, o mau desemprenho económico do país, e as tentativas da Irmandade de ganhar mais poder no sector judiciário. Do outro lado, Mursi nunca conseguiu o apoio dos militares e da polícia, sendo que a situação de segurança, sobretudo relativamente a ataques de caracter sexual a mulheres, um problema grave no Egipto, deteriorarem ainda mais desde a revolução de 2011.

O General Abdel-Fattah al-Sissi anuncia o golpe militar contra o governo da Irmandade Muçulmana e a suspensão da contituição
O General Abdel-Fattah al-Sissi anuncia o golpe militar contra o governo da Irmandade Muçulmana e a suspensão da Constituição

Porém o golpe militar está agora a gerar uma polarização ainda maior entre a população Egípcia. Enquanto que os opositores do Presidente deposto criticam o seu desempenho à frente do Estado Egípcio, os seus apoiantes sentem-se cada vez mais vitimados, nomeadamente como resultado do fecho de vários canais pro-Mursi, assim como a detenção arbitrária de vários dos membros mais importantes da Irmandade Muçulmana, e argumentam que a suspensão da constituição constitui um ataque às instituições democráticas pela parte daqueles que criticam a Irmandade por fazer exactamente o mesmo. Muitos alegam igualmente que o golpe já estava a ser preparado há muito tempo, aludindo ao facto que Mursi convidou a oposição para fazer parte do governo em Fevereiro de 2013, convite que foi prontamente rejeitado. Do seu lado, os opositores de Mursi, muitos dos quais faziam parte dos movimentos de oposição contra o regime militar, agora apoiam o golpe, dizendo que a intervenção do exército era necessária para impedir que a Irmandade abusasse do seu poder e tomasse conta das instituições mais importantes do Estado. Dizem também que muitos votaram em Mursi somente porque o outro candidato nas eleições de 2011, Chafiq, estava demasiado ligado ao antigo regime, pelo que votaram em Mursi somente para impedir que o antigo regime continuasse, desta vez com uma maior  legitimidade como resultado da eventual vitória eleitoral.

Choques violentos nas pontes de acesso à praça Tahrir, Cairo, 5 de Julho de 2013
Choques violentos nas pontes de acesso à praça Tahrir, Cairo, 5 de Julho de 2013

Os dois lados do conflito têm razões de queixa. Mas uma coisa é certa- a Irmandade Muçulmana, que lutou durante décadas na clandestinidade contra o regime militar no Egipto, encontra-se numa posição cada vez mais difícil, sendo que o golpe militar poderá gerar um sentimento que o processo eleitoral foi usurpado ilegitimamente pelo exército, sendo o retorno à clandestinidade e possivelmente à violência uma possibilidade cada vez mais provável. Sobretudo, a escalada da violência no Egipto parece agora inevitável, ameaçando fazer com que este país, cada vez mais polarizado como resultado dos acontecimentos dos últimos dias, seja mergulhado em maior instabilidade, instabilidade que se poderá alastrar ao resto da região.

João Silva Jordão