Bush (2002)- "O Saddam tem armas de destruição maciça!", Obama (2012)- "O Assad tem armas de destruição maciça!" Mesmos pretextos, mesmos objectivos.
Bush (2002)- “O Saddam tem armas de destruição maciça!”, Obama (2012)- “O Assad tem armas de destruição maciça!” Mesmos pretextos, mesmos objectivos.

Uma notícia do Daily Mail, que foi posteriormente retirada do seu site, mas cujo registo se encontra disponível na Internet, revela que já em Janeiro de 2013 os Estados Unidos da América apoiaram um plano para usar armas químicas na Síria para depois culpar o ataque no regime Sírio, providenciando um pretexto para prosseguir com a invasão militar que tanto beneficiaria os EUA, e que tanto avançaria os seus interesses estratégicos da região.

Este é mais um indício que nos permite perceber o que se está verdadeiramente a passar na Síria, sobretudo relativamente às ultimas acusações dos rebeldes e de alguns países Ocidentais.

Os rebeldes Sírios acusaram recentemente o regime de Bashar al-Assad de utilizar armas químicas num ataque que fez centenas de vítimas em Ghouta, um subúrbio de Damasco. Porém cada vez mais elementos demonstram que as ultimas acusações feitas pelos ‘rebeldes’ ao regime de al-Assad são falaciosas. Muitos dos grupos dos ‘rebeldes’ Sírios nem sequer são Sírios, são insurgentes estrangeiros financiados pelo Bloco Ocidental ou até treinados pela CIA. Sabemos igualmente que alguns destes grupos rebeldes têm eles próprios armas químicas, e que muitos destes grupos  defendem uma intervenção estrangeira que apoie a sua campanha militar que, sem apoio estrangeiro imediato, parece condenada ao fracasso. O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, disse que uma intervenção dos EUA está fora de questão– mas como de costume, as palavras proferidas pelo presidente Norte-Americano são enganadoras, e os movimentos dos navios de guerra Norte-Americanos demonstram que uma intervenção directa é cada vez mais provável. A França já veio dizer que a utilização da força militar na Síria ‘talvez seja necessária‘.

Para perceber a situação temos que enquadrar brevemente o conflito Sírio dentro da realidade geopolítica do Médio Oriente.

A primavera Árabe foi catalisada por tumultos sociais na Tunísia e levou à mudança de regimes em vários países na região. A Tunísia, a Líbia, o Egipto e a Síria continuam em períodos de mudança política intensa, estando os últimos três a viver momentos de particular instabilidade, instabilidade essa que no caso da Líbia e da Síria, e cada vez mais no Egipto, se aproxima de um estado de guerra civil total.

Mas existem dois elemento que distinguem a Líbia e a Síria dos outros países mencionados. O primeiro é a presença de insurgentes estrangeiros, muitos deles ligados a grupos acusados de serem ‘extremistas’/’terroristas’, e que mesmo assim estão a receber apoio logístico e financeiro pela parte de países Ocidentais, sobretudo os Estados Unidos da América, o Reino Unido e a França. O segundo é o facto de o antigo regime de Ghaddafi, como o actual regime de al-Assad, representarem uma ameaça à hegemonia geopolítica do Bloco Ocidental (bloco este composto sobretudo pela União Europeia e pelos EUA e operacionalizado militarmente através da NATO). Enquanto que o regime de Ghaddafi era uma ameaça para o ‘Petrodollar’ porque reivindicava o direito de comprar petróleo nos mercados internacionais sem utilizar o Dollar Americano, e até propunha ativamente a formação de um Dinar de ouro para os países do Sul se puderem livrar da supremacia monetária Ocidental, o regime de Bashar al-Assad é um aliado estratégico do Irão e do seu satélite Libanês, o Hezbollah.

Esta aliança, a qual podemos qualificar de ‘Eixo Xiita’, já por várias vezes frustrou e derrotou campanhas militares de regimes do Médio Oriente alinhadas com o Bloco Ocidental, nomeadamente a vitória do Irão sobre o Iraque na década de 1980 naquela que foi a guerra mais prolongada do século XX,  (na altura o ditador sanguinário Saddam Hussein era financiado e apoiado pelo Ocidente, sobretudo pelos EUA e pela França). O Bloco Ocidental estava ansioso para esmagar a revolta popular Iraniana de 1979, liderada pelo Ayatollah Khomeini, que destronou o Shah, o monarca que era considerado como o maior aliado dos EUA no Médio Oriente. A polícia secreta política do regime do Shah, a Savak, era treinada pela CIA, sendo virtualmente uma sucursal da infame agência de segurança Americana na região. O Irão conseguiu repelir a invasão Iraquiana, mesmo tendo recursos muito limitados em relação ao Iraque, que ele tinha vasto apoio militar e financeiro do Ocidente. O apoio Ocidental a Saddam ainda é hoje uma das razões pela desconfiança dos Iranianos para com os governos Ocidentais.

O Bloco Ocidental quer destruir a República Islamica do Irão desde a sua incepção em 1979, e para o fazer na conjuntura actual, necessita de derrubar o regime de al-Assad na Sìria primeiro
O Bloco Ocidental quer destruir a República Islamica do Irão desde a sua incepção em 1979, e para o fazer na conjuntura actual, necessita de derrubar o regime de al-Assad na Síria primeiro

A situação na Síria está a seguir os padrões que se manifestaram na Líbia, com duas grandes diferenças- os acontecimentos na Síria estão prolongar-se muito mais do que os acontecimentos na Líbia, e sobretudo, a importância geopolítica da Síria é substancialmente maior. Constatamos que enquanto que a revolta na Líbia, que começou por volta de Fevereiro de 2011, era descrita pelos meios de comunicação e pelos governos Ocidentais como uma revolta popular, protagonizada por uma população doméstica insatisfeita com o regime de Ghaddafi, depois da caída do regime, e já com a Líbia praticamente em estado de guerra civil, com grande parte da sua infra-estrutura destruida e a sua sociedade em destroços, o Reino-Unido veio gabar-se sobre o facto das suas tropas especiais terem estado no terreno a instigar a guerra civil desde o inicio do conflito, alegando que foram de facto eles (os governos Ocidentais) a derrotar Muammar Ghaddafi. Afinal, aqueles que no principio do conflito na Líbia eram manifestantes pacíficos, e que depois se tornaram em ‘rebeldes domésticos que lutavam pela liberdade e democracia’, eram insurgentes, muitos deles ligados à Al-Qaeda, financiados e apoiados no terreno por forças especiais subservientes ao Bloco Ocidental com o unico objectivo de derrubar um regime inimigo (ou no caso de Ghaddafi, um regime que não era suficientemente subserviente aos interesses Ocidentais, como é o caso do regime totalitário de Bashar al-Assad na Síria).

A ultima derrota do Bloco Ocidental pelas mãos do Eixo Xiita foi em 2006, ano no qual o Hezbollah conseguiu derrotar a invasão do Estado de Israel ao Líbano. Se o regime de Bashar al-Assad cair, a via de comunicação e transporte entre o Hezbollah e o Irão será cortado. O espaço aéreo Sírio poderá ser utilizado por Israel para facilitar uma invasão militar ao Irão que o Estado Sionista tanto defende. Resumindo, uma mudança de regime na Síria e a instalação de um regime mais amigável às aspirações do Bloco Ocidental é um passo fundamental para restabelecer e a hegemonia Ocidental na região e para continuar a política de guerra total contra o Islão, e por sua vez o alegado uso de armas químicas pelo regime de al-Assad é o pretexto perfeito para prosseguir com uma invasão militar.

João Silva Jordão