Somente marketing e venda de productos, ou... Também será lavagem cerebral?
Somente marketing e venda de productos, ou… Também será lavagem cerebral?

Longe de ser somente um veículo de venda de produtos, há muito tempo que a ciência do marketing é utilizada para manipular a nossa percepção da sociedade. Aqui estão três exemplos recentes de anúncios cujos conteúdos transcendem a tentativa de vender um produto, e tentam igualmente mudar a nossa perspectiva sobre fenómenos sociais e acontecimentos políticos recentes.

Depuralina Ampolas – Os Portugueses são uns gordos nojentos que comem acima das suas possibilidades

Numa altura em que se falava muito da fome nas escolas, a subida da venda de papas alimentares como resultado da crise, etc, este anúncio apresenta a tese que afinal os Portugueses são uns grandes gordos que comem acima das suas possibilidades e consomem calorias a mais. O conceito deste anúncio é bastante parecido com as opiniões controversas que Isabel Jonet nos apresentou em 2012, e levanta outra vez a pergunta, Quem Ganha com a Fome em Portugal?.

Coca-Cola – Pára de te queixar e conforma-te à situação presente. Criticar o rumo da sociedade ou das decisões dos governantes equivale a ser negativo, derrotista e chato.

Este anúncio tem muitos elementos particularmente chocantes. Entre muitas coisas, apresenta a ideia que o facto de muitos casais quererem um filho ser uma coisa boa, num país em que a crise resultou na baixa de natalidade por falta de recursos destes mesmos casais. Diz igualmente que não nos devemos preocupar com a industria do armamento, nomeadamente com a construção de tanques, porque são fabricados muitos ursinhos de peluche. Tenta dar uma conotação posítiva ao aumento do desemprego e da pobreza porque aumentam a caridade, e diz que os Portugueses não se devem queixar do estado do país porque o fado foi declarado Património da Humanidade, e porque Portugal tem menos dias de chuva do que sol.

Coca-Cola – Ser filmado por câmaras de vigilância é positivo e devemos aceitar a sociedade de vigilância

O facto do mecanismo de repressão do Estado contar cada vez mais com uma extensa a invasiva rede de vigilância para o apoiar deveria ser uma fonte de grande preocupação para toda a população. As recentes revelações sobre a vigilância da actividade informática dos cidadãos de todo o mundo pela parte de agências secretas Ocidentais assim como a presença cada vez maior de câmaras de vigilância nas vias públicas somente aumentam as razões para nos preocuparmos relativamente ao Totalitarismo Instantâneo que se vê no horizonte.

Este anúncio recente da Coca-Cola pelo contrário tenta dar uma conotação positiva à video-vigilância, mais uma vez utilizando as emoções do espectador em vez do raciocínio. O facto das câmaras de vigilância gravarem imagens de boas ações não diminuem de todo o perigo que representam para as liberdade cívicas e a completa invasão da privacidade dos cidadãos que estas permitem.

Existe um excelente documentário sobre como a indústria do marketing foi desenvolvida, e as fortes ligações que sempre teve ao mundo da engenharia social e da propaganda política, chamado ‘Century of the Self‘, produzido pela BBC, da autoria de Adam Curtis, que aprofunda este tema. É extremamente raro em Português, mas ficam aqui as ligações para as primeiras duas partes, com legendas. O documentário tem um total de quatro partes que seguem a história das relações públicas e do marketing de forma cronológica através do século XX. As duas últimas são igualmente brilhantes mas são mais difíceis de encontrar em Português.

Primeira parte.

Segunda parte.

João Silva Jordão