Foi um dos sucessos mais fulminantes da era da Internet. Um documentário alegadamente independente, supostamente sem fins lucrativos, foi visto, em cerca de uma duas semanas, por cerca de 80 milhões de pessoas. As redes sociais foram inundadas por centenas de milhares de pessoas a partilhar e comentar freneticamente o documentário de meia hora. As pessoas que o fizeram, muitas das quais nunca tinha tido nenhuma espécie de actividade política, apelavam fervorosamente à partilha do documentário, à angariação de fundos para a causa em questão, à compra do ‘Kit de Ação’ com material relacionado com o documentário, e à organização de grupos de colagem de cartazes para publicitar a sua causa. Este documentário foi o Kony 2012, visto até agora por mais de 100 milhões de pessoas, filme que apelava à organização e ação directa contra o guerrilheiro do Uganda, Joseph Kony.

Joseph Kony
Joseph Kony

Porém, as críticas ao documentário seguiram-se quase tão rapidamente quanto este tinha conseguido invadir as redes sociais através do mundo. Muitos acusavam o documentário de omitir informação importante, de manipular os seus intervenientes e espectadores, e mesmo de apoiar indirectamente uma invasão do Uganda pelos Estados Unidos da América. A controvérsia foi tão avassaladora que o realizador teve mesmo um período de instabilidade mental, tendo sido inclusivamente preso por actos sexuais ilícitos nas ruas de San Diego.

Um dos primeiros blogues de língua Portuguesa a esboçar uma critica ao filme Kony 2012 foi a Casa das Aranhas, num artigo intitulado “Kony 2012 – Mentiras, Propaganda e a Legitimação de Mais Guerra“. O artigo, escrito em Março de 2012, argumentava que:

“Sob o pretexto de ‘lutar contra a guerra’, este filme de 30 minutos visa fazer com que Joseph Kony, um violento líder de um exercito rebelde do Uganda sem ideologia aparente, fique famoso. Mais ainda, visa angariar fundos para financiar 100 membros de forças especiais Americanas estacionadas no Uganda. Mas quem acaba de ver o filme só se aperceberá do primeiro objectivo- fazer com que Kony fique famoso. Porque no meio de tanta manipulação emocional reside muito pouca informação factual e muita desinformação, a qual camufla o verdadeiro objectivo do filme e as implicações da sua campanha. Sobretudo, este filme esconde as suas verdadeiras afiliações politicas com um festival de facilitismo emocional infantil que omite muita informação, informação a qual, se considerada calmamente, faria com que qualquer espectador se apercebesse rapidamente da verdadeira natureza deste filme- é propaganda que exige mais uma intervenção militar dos Estados Unidos da América no hemisfério Sul. Em vez de realmente propor maneiras de parar com o conflito armado em questão, Kony 2012 irá somente fomentar mais guerra e mais sofrimento.”

E afinal esta análise estava bastante correcta. Os Estados Unidos anunciaram recentemente (Março de 2014), dois anos depois do lançamento de Kony 2012, que vão reforçar o seu contingente militar na Uganda e nos países vizinhos, sob o pretexto da procura do guerrilheiro Joseph Kony.

A seguinte passagem foi retirada e traduzida de um artigo de 24 de Março de 2014 do site Britânico da BBC (o artigo original pode ser acedido aqui):

“Os EUA anunciaram o envio de aviões militares e mais forças especiais para procurar o líder rebelde da Uganda, Joseph Kony.

Pelo menos quatro CV-22 Ospreys e aviões de reabastecimento, assim como 150 membros das forças especiais da força aérea chegaram ao Uganda esta semana, disseram.

Joseph Kony é procurado pelo Tribunal Penal Internacional, sob a acusação de crimes de guerra.

Os EUA enviaram cerca de 100 forças especiais pela primeira vez em 2011 para ajudar milhares de tropas africanas a localizá-lo.

O Exército de Resistência do Senhor (ERS, LRA em inglês) são notórios pelo sequestro de crianças, forçando rapazes a tornarem-se em lutadores e mantendo igualmente raparigas como escravas sexuais.

Os rapazes são forçados a matar os seus pais, levando-os consequentemente a pensar que não podem voltar para casa.”

Parece que o complexo industrial militar dos Estados Unidos da América e a presente administração esperaram para que toda a controvérsia à volta do filme Kony 2012 se acalmasse para prosseguirem com o plano que sempre esteve por detrás da campanha de propaganda contra Joseph Kony. Este plano é, nomeadamente, mas não só, aumentar a presença militar dos EUA na Africa, liderada pela Africom, com o apoio (ou através) da União Africana. O filme Kony 2012 não só foi uma peça fundamental na campanha propagandista de legitimação da intervenção militar dos EUA no Uganda que estava em curso desde 2011– os mesmos argumentos falaciosos que foram utilizados através do filme continuam a permear toda a campanha militar dos EUA no Uganda .

João Silva Jordão