O livro 1984 de George Orwell, cujo verdadeiro nome era Eric Blair, permanece um dos trabalhos mais brilhantes na área da geopolítica. Orwell consegue, num breve romance, ser mais esclarecedor do que a grande maioria dos autores de ciência política conseguem em gigantescos volumes. Porém, não devemos subestimar a autoridade de Orwell na área da política; foi, afinal de contas, uma pessoa que viu, viveu e participou ativamente em muitos dos acontecimentos marcantes da sua época. Participou na guerra civil Espanhola lado a lado com milícias socialistas, era muito conhecido e frequentava a intelligentsia de esquerda do seu tempo, e trabalhou para a polícia colonial Britânica da Índia, acabando por trabalhar para os serviços secretos Britânicos. Chegou até a denunciar activistas e personagens que acreditava serem agentes Comunistas infiltrados à agência de inteligência Britânica, MI5. Não é de espantar portanto que 1984 seja um livro sobre política no sentido largo e profundo do termo, tratando não somente de geopolítica, mas também de propaganda, administração interna, organização Estatal, espionagem, traição, infiltração e psicologia.

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George Orwell, cujo verdadeiro nome era Eric Blair

O livro 1984, uma crítica ao totalitarismo de Estado em geral, e ao Estalinismo em particular, é mais conhecido pela visão assombrosa do Estado totalitário que vigia constantemente os seus cidadãos, mantendo-os num estado de subserviência, impotência e desmoralização perpétua. A visão de Orwell de um Estado que vigia os seus cidadãos constantemente faz com que um Estado totalitário, ou qualquer tendência parcialmente totalitária, seja por vezes apelidada de ‘Estado Orwelliano’. O presente mecanismo de vigilância moderno, caracterizado por alguns como sendo um ‘totalitarismo instantâneo’, pode ser visto como sendo Orwelliano na sua natureza. Existem porém muitos outros elementos de interesse no romance de Orwell, nomeadamente, a visão de como Estados usam a guerra para controlar a sua população, guerras estas que podemos apelidar de Guerras Orwellianas. O recente conflito na Ucrânia demonstra mais uma vez a perspicácia de Orwell na análise geopolítica, sendo este conflito uma Guerra Orwelliana em toda a linha.

Aqui estão algumas passagens escolhidas do capitulo II, parte 9 do romance 1984, que explicam a natureza da Guerra Orwelliana.

“Para compreender a natureza da guerra atual – pois, apesar do reagrupamento que ocorre a cada poucos anos, é sempre a mesma guerra – deve-se perceber, em primeiro lugar que é impossível para esta guerra ser decisiva

“Na medida em que a guerra tem uma finalidade econômica direta, é uma guerra de força de trabalho…

“É para a posse dessas regiões densamente povoadas, e da camada de gelo do Norte, que os três poderes estão constantemente lutando. Na prática, nenhum poder controla toda a área disputada. Porções dela estão constantemente a mudar de mãos, e é a oportunidade para aproveitar este ou aquele fragmento de terra através de um golpe súbito de traição que dita as mudanças intermináveis ​​de alianças…

Os habitantes dessas áreas, reduzidos mais ou menos abertamente à condição de escravos, passam continuamente de conquistador a conquistador e são gastos como tanto carvão ou petróleo na corrida à produção de mais armamentos, da captura de mais território, do controle de mais força de trabalho, à produção de mais armamentos, da captura de mais território, e assim indefinidamente. Note-se que a luta nunca vai além das fronteiras das áreas disputadas

A guerra, portanto, se avaliada pelos padrões de guerras anteriores, é meramente uma impostura. É como as batalhas entre certos ruminantes, cujos cornos são incapazes de infligir ferimentos mútuos. Mas apesar de ser uma farsa, não deixa por isso de ter um propósito. Consome-se o excedente de bens de consumo, o que ajuda a preservar a atmosfera mental particular de que a sociedade hierárquica necessita. A guerra, como se pode constatar, agora é um assunto puramente interno. No passado, a grupos de todos os países no poder, embora podendo reconhecer o seu interesse comum e, portanto, limitar o poder de destruição da guerra, lutaram uns contra os outros, e o vencedor acabava sempre por saquear os vencidos. Nos nossos dias, eles não estão a lutar uns contra os outros em tudo. A guerra é travada por cada grupo no poder contra os seus próprios sujeitos, e o objeto da guerra não é fazer ou evitar conquistas de território, mas para manter a estrutura da sociedade intacta. A própria palavra ‘guerra’, portanto, tornou-se enganosa. Provavelmente seria correto dizer que, tornando-se contínua, a guerra deixou de existir…

“A paz que foi verdadeiramente permanente seria o mesmo que uma guerra permanente. Este – embora a grande maioria dos membros do Partido o compreenda no seu sentido mais superficial – é o significado interno do slogan do partido: A Guerra é Paz …

Ou seja, no mundo de Orwell, ao encenar supostas guerras entre si, os dois ou mais blocos políticos de facto conseguem atingir um grau elevado de estabilidade interna, conseguindo perpetuar a estrutura hierárquica da sociedade, continuando a subjugar os habitantes dos seus respectivos territórios sem nunca porem em questão a existência dos outros blocos políticos. Ou seja, ao encenarem uma guerra continua entre eles, os blocos políticos asseguram a paz efetiva para as suas respectivas elites políticas e económicas, podendo estas continuar descansadas na sua posição de supremacia sobre as outras classes sociais.

A crise da dívida pública está a ser utilizada para Federalizar a Europa, ou seja, para centralizar ainda mais os mecanismo de poder, nomeadamente, para avançar para uma união Económica e Fiscal ainda maior. Por sua vez a crise Ucraniana será sem dúvida utilizada para Federalizar a Europa também, mas por sua vez, do ponto de vista militar, assim como nas áreas da segurança e das relações estrangeiras. Graças à crise da Ucrânia, a NATO anunciou a geração de uma nova força militar de ‘resposta rápida’. O conflito da Ucrânia está também dar uma oportunidade para agentes da industria militar apelarem a que mais verbas sejam disponibilizadas para o exército. Alguns até apontam para a crise da Ucrânia como tendo o lado positivo de obrigar a NATO a começar a aumentar os seus gastos militares, seguindo assim a subida de investimento que a própria Rússia tem vindo a dedicar às suas forças armadas. Este ‘conflito’ serve também como um pretexto para a Rússia continuar a sua crescente militarização assim como uma oportunidade para treinar modelos de anexação dos territórios que a rodeiam nos quais possa ter interesse.

Cada vez mais elementos sugerem que a União Europeia e os Estados Unidos da América estiveram por detrás de várias acontecimentos que ajudaram à escalada das tensões, nomeadamente, os assassinatos de protestantes por snipers. Muitos falam também da hipocrisia da aliança entre o Bloco da NATO e grupos fascistas Ucranianos, como o Svoboda, que a NATO usa como agentes de proximidade no terreno para fazer o seu trabalho sujo.

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John Mccain com o líder da organização Fascista Ucrâniana, Svoboda, Oleh Tyahnybok, que tem feito o trabalho sujo da NATO no terreno…

O que tem sido menos discutido, porém, é a que ponto é que a crise da Ucrânia é útil para os dois lados da barricada, ou seja, é um conflito que beneficia os dois blocos, a NATO e a Federação Russa. Este conflito permite aos dois de usarem terrenos contestados para treinar as suas forças militares sem por isso porem a sua integridade territorial em risco. Permite também aos dois lados legitimar perante a sua população maiores gastos da industria militar, que depois serve tanto para agressão estrangeira como para fins de repressão interna.

Sobretudo, temos que olhar para os elementos que revelam este ‘conflito’ como aquilo que verdadeiramente é: uma enorme farsa. De facto o que estamos a constatar não é um conflito entre a NATO e a Federação Russa, mas sim uma demonstração de força controlada, uma espécie de treino em que os dois blocos mostram alguma da sua força sem nunca porem em questão a existência do outro. Vejamos alguns factos interessantes que revelam a colaboração continua entre o bloco da NATO e a Federação Russa, desmascarando a farsa que é o suposto conflito entre os dois:

-As três maiores potências militares da União Europeia, ao Reino-Unido, a França e a Alemanha, continuam a vender armas à Rússia, ao mesmo tempo que os seus líderes apelam a um embargo de vendas futuras

-Os serviços secretos Russos e da NATO continuam a colaborar em grande escala e a partilhar informações sobre inimigos comuns, nomeadamente grupos armados Chechenos, como foi constatado depois do bombardeamento de Boston

-A dependência da Alemanha do gás Russo continua, e os negócios entre os dois países têm aumentado, e não abrandado, desde o anúncio de sanções à Rússia. Vejamos por exemplo:

-Recentemente celebrou-se um enorme contracto mútuo entre a Gazprom, companhia Estatal Russa, e a BASF, companhia Alemã

-Um grupo de investimento Russo investiu 7 mil milhões de Dólares na RWE, companhia de gás Alemã

De um lado, o conflito fornece um pretexto à UE e aos EUA de se unirem militarmente através da NATO e economicamente através da TTIP, inflacionando uma industria de ‘defesa e segurança’ (ou seja, de agressões no estrangeiro e controle doméstico). Do lado Russo, alimentam a fogueira nacionalista e o revivalismo do Imperialismo Russo. Exatamente como nos conflitos Orwellianos no romance 1984 entre os blocos que fingem detestar-se enquanto de facto são coniventes nos bastidores, os dois lados, Rússia e NATO, fingem estar a aproximar-se de um conflito aberto, quando de facto continuam a promiscuidade económica e militar entre os dois, usando a alegada guerra para consolidar os interesses políticos e geopolíticos que têm em comum.

O conflito da Ucrânia, que a comunicação social nos quer fazer acreditar a todo custo como sendo um verdadeiro conflito entre a NATO e a Rússia, é de facto um conflito entre a rede Estatal-Corporativa da qual a NATO e a Rússia fazem parte, e as populações do mundo. Até agora, a população que mais tem sofrido com este pseudo-conflito é a população da Ucrânia, vítimas da hipocrisia e ganância dos dois Blocos. Mas na medida que recursos físicos e energias mentais continuam a ser encaminhadas para guerras fraudulentas e criminosas em vez de serem investidos em verdadeiro desenvolvimento humano, todos nós acabamos por ser prejudicados também.

João Silva Jordão