O problema da censura

Normalmente, a censura, e em particular a censura de Estado, parte do principio que a exposição a certo tipo de material tem efeitos negativos, nomeadamente, que desencadeia a degeneração intelectual e ética do espectador. Este material é então definido como sendo “perigoso”, e segue-se que o número de pessoas exposta a este material deve ser o mais reduzido possível. Para impedir o processo de degeneração por exposição a este material “perigoso”, o Estado vai portanto adoptar uma medida- a censura.

Esta medida torna-se rapidamente e inevitavelmente numa grande contradição, pois para censurar material, o Estado tem que eleger um conselho, e depois toda uma classe de operativos, para efetivar esta mesma censura. O conselho vai decidir qual o tipo de material a ser censurado, e a classe de operativos vai depois fazer uma triagem para decidir qual o material em circulação que adere aos parâmetros definidos pelo conselho como constituindo material digno de ser censurado.

Mas para o fazer, estes mesmos operativos são eles mesmos expostos a este material, que segundo o raciocínio inicial, provoca degeneração intelectual e ética a quem a ele está exposto. Pior ainda, enquanto que a maioria da população estaria, em condições normais, exposta a este material de vez em quando, esta classe de censores vai estar constantemente exposta a este material “perigoso”. Levando este raciocínio ainda mais longe, os censores, por estarem expostos ao pior do material durante muito tempo, vão, necessariamente, tornar-se particularmente degenerados.

Ou seja, para que a censura Estatal seja logisticamente exequível, ela tem que ser maneada por uma classe de degenerados profissionais.

Este ultimo ponto não deixa de ser, de certa forma, verdade, pois os censores são, por definição, degenerados, mas não por estarem expostos a material “perigoso”, mas por compactuarem com um mecanismo que é inerentemente irracional, contraditório e hipócrita.

João Silva Jordao