Jesus Dois Pais

O Bloco de Esquerda lançou recentemente um cartaz, acima, defendendo o direito à adoção de casais homossexuais usando a imagem de Jesus. A “lógica” é que Jesus tinha, alegadamente, dois pais, implicitamente indicando que os Cristãos deveriam igualmente aceitar que um casal de dois homens deveria poder adotar crianças legalmente.

Numa primeira análise podemos concluir que está a tentar convencer os setores mais conservadores Cristãos da sociedade a aceitar a adoção por casais homossexuais, porém, uma análise mais séria demonstra facilmente que este tipo de cartazes são contraproducentes tanto para a campanha em questão como para o próprio Bloco de Esquerda.

Nas recentes eleições, o Bloco teve resultados históricos, e a receita foi simples- concentrou-se em questões económicas, defendendo a juventude mal paga e precária, as pensões dos idosos, os desempregados e desempregadas. Defendeu intransigentemente os interesses dos setores mais atacados pelo anterior governo, e sobretudo, manteve as reais preocupações da população como prioridade máxima, alargando assim o seu eleitorado.

Este cartaz, e tudo o que implica, está em contradição direta com a campanha de grande sucesso de 2015. Vejamos então ponto a ponto, os erros estratégicos, intelectuais, históricos e políticos deste cartaz, erros que podemos identificar igualmente noutras campanhas do Bloco de Esquerda e que revelam uma ignorância e falta de tato transversal a muitos setores da esquerda pelo mundo fora.

  1. É uma provocação barata, fácil e desrespeitosa que aliena uma grande parte da classe trabalhadora, sobretudo, mas não só, os setores Católicos pelo país fora, para satisfazer fetiches infantis/adolescentes da pequena burguesia Lisboeta
  2. Reproduz uma falsa imagem de Jesus que foi introduzida pela detestável dinastia Borgia. Jesus tinha a pele mais escura e feições mais Orientais e Africanas, mas a imagem mais utilizada para representar Jesus é uma adaptação da cara de Cesare Borgia. A reprodução desta imagem fomenta o racismo através do branqueamento, literalmente, da imagem de Jesus.
  3. O conceito de que Jesus é a terceira parte da Trindade, o filho do Espirito Santo/Deus, conceito que encontramos no Novo Testamento da Bíblia, é um produto da teologia Católica, pouco popular na altura em que foi codificada (no conselho de Niceia). Esta doutrina não era aceite pelos Cristãos originais, Cristãos esses que o Império Romano e o seu descendente direto, a Igreja Católica, sempre oprimiu. O Bloco de Esquerda neste cartaz faz referência a esta doutrina somente para a usar de forma provocatória contra aqueles que nela acreditam. É portanto contraproducente.
  4. Campanhas como esta alienam muitos crentes, Cristãos ou não, dos partidos de esquerda assim como da atividade política em geral. Demonstram uma grande ignorância da história das religiões e dos textos religiosos. Ironicamente, a Igreja Católica sempre fez o máximo para desmotivar a população de se envolver em lutas políticas e de adquirir conhecimento, nomeadamente religioso. A tradução da Bíblia para línguas vivas, retirando o monopólio da leitura desta ao clero, foi uma das grandes batalhas da Reforma Protestante. Com o seu ódio cego pela ‘religião’, a esquerda acaba, sem saber, por jogar o jogo da estrutura de poder Católica, alienando ainda mais as pessoas com as quais teriam mais interesse em colaborar.
Cesare Borgia e Jesus
Cesare Borgia (esquerda) e uma imagem de Jesus inspirada nas suas feições (direita)

 

Este tipo de escolhas políticas são resultado da influência cada vez maior da esquerda pós-moderna que é por definição periférica e marginal, e que consegue um protagonismo político desproporcional somente por causa do alto índice de formação académica e acesso a meios de comunicação dos seus membros. As prioridades que a esquerda pós-moderna adota são as prioridades da classe que ela representa.

A esquerda pós-moderna representa um dos setores da sociedade mais degenerados, no caso do Bloco de Esquerda, a pequena-burguesia Lisboeta, notável pelas seguintes características: O elitismo, o egoísmo, o desprezo pelas crenças e cultura da classe trabalhadora, o carreirismo, a utilização de linguagem complexa para projetar uma falsa imagem de sofisticação, a superficialidade filosófica, a vacuidade de carácter, o policiamento do léxico usado pelas camadas mais populares, uma quási-inexistente formação teológica assim como uma fraca formação Marxista. A última questão, o baixo índice de formação Marxista, é particularmente preocupante pois significa que nem à ideologia que pretendem defender conseguem ser fiéis. Se tivesse formação Marxista, esta ala saberia que o Comunismo nunca teria existido como movimento político sem a ajuda de alas progressistas da religião Cristã.

Qualquer Marxista com o mínimo de formação histórica sabe que o Comunismo é um movimento político que surge no fim do século XIX como resultado da aliança entre um grupo minúsculo de intelectuais, os Marxistas, e um grupo de Cristãos utópicos progressistas, a Liga dos Justos, que só mais tarde se tornou na Liga dos Comunistas. A Liga dos Justos usava linguagem abertamente Cristã e o seu objetivo principal era “o estabelecimento do Reino de Deus na Terra, com base nos ideais de amor ao próximo, igualdade e justiça” |1|. Foram os Marxistas que se juntaram aos Cristãos progressistas, e não o contrário.

Em conclusão, existe na esquerda em geral como no Bloco de Esquerda, uma ala cada vez mais influente, e cuja predominância nas camadas mais jovens poderá transformar-se em maior influência futura, cujas prioridades políticas são alienantes para a grande parte da população, neutralizando assim a capacidade de esquerda de protagonizar mudanças políticas consequentes.

O Bloco de Esquerda tem então duas opções: Continuar a linha que escolheu para a eleição de 2015, concentrando-se na luta contra a desigualdade económica tornando-se assim numa verdadeira alternativa política para tentar resolver os problemas reais da população, ou deixar-se tomar pela ala elitista pós-moderna pequeno-burguesa infantil e degenerada, o que verá o Bloco destinado a derrotas eleitorais e consequentemente, insignificância total e eventual desagregação.

João Silva Jordão

|1| The Basics of Marxist-Leninist Theory, G.N. Volkov, 1979 (Referência retirada da página Wikipedia sobre a Liga dos Comunistas; https://pt.wikipedia.org/wiki/Liga_dos_Comunistas#cite_note-1)