“O problema do mundo de hoje é que as pessoas inteligentes estão cheias de dúvidas, e as pessoas idiotas estão cheias de certezas” – Charles Bukowski

Há pouco tempo disse a alguém que, para mim, os pós-modernos ‘são a malta do “eu só sei que nada sei”‘, ideia que é aqui mencionada neste delicioso meme que tenta ridicularizar a aparente ignorância e confusão no seio dos críticos do pós-modernismo.

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Tradução: “Não temos nada que se pareça com argumentos válidos ou lógica, e por isso vamos abster-nos de dizer algo minimamente útil. Mas mesmo assim queremos projetar uma imagem de sofisticação e intelectualidade, por isso vamos gozar com os nossos críticos ao confecionar uma sopa de ironia com uma pitada de humour e soja (sem glúten). Já lemos mais livros do que tu, e que fique claro que adoramos filósofos Franceses, e isso faz de nós uma forma de existência claramente superior a vocês, seus patéticos plebeus. Sartre. Foucault. Renault. Omelette du fromage. Ooh la la!” (Fonte deste meme, de que até gostei bastante: “Decomposição de Classe…”)

Mas quem anda muito confuso parecem mesmo ser os pós-modernos. Afinal de contas, a confusão é para esta escola de pensamento uma virtude a ser promovida e não um obstaculo a ser ultrapassado.

O pós-modernismo é uma perversão completa da famosa frase de Sócrates (ou de Platão citando Sócrates), “eu só sei que nada sei”, frase esta que visa promover uma atitude de humildade intelectual, chamando à adoção do questionamento perpétuo, mas como um meio para chegar à verdade, e partindo do principio que a verdade existe e que a podemos atingir, mesmo que parcialmente e sempre com margens de erro. Esta frase, na sua forma e interpretação original, representa uma maneira de promover a curiosidade metódica, levada a cabo através do inquérito científico, mas sempre com vista a chegar a conclusões que podemos depois aplicar de forma prática.

Já o pós-modernismo representa uma capitulação perante o relativismo, propondo que a verdade por e simplesmente não existe, e que toda e qualquer tentativa de chegar a conclusões decisivas é fútil, e que qualquer “conclusão” depende só da sua proveniência e contexto social. Uma qualquer “conclusão” nunca será, portanto, conclusiva, e que qualquer pessoa que afirma ter chegado a tal coisa que se pareça como a captura da verdade só demonstra a sua própria limitação intelectual, não se apercebendo dessas mesmas limitações. No mundo pós-moderno, o intelectual mais respeitado não é o pensador que clarifica, mas sim o que complexifica, mistifica e problematiza ainda mais uma realidade já por si avassaladoramente intimidante.

Basicamente, o pós-modernismo é uma aberração anticientífica (ou pseudocientífica) que chama à rendição perante a complexidade da realidade, promovida e adotada maioritariamente por pessoas que têm vidas de considerável conforto material, sem serem vitimas de opressão política séria, e que se podem dar ao luxo de passarem a vida a competir entre si na confeção de textos ultra-complexos com linguagem inacessível ao público, peojetando uma imagem, muitas vezes falsa, de intelectualidade, prontamente acusando quem fala de forma simples e clara de falta de intelecto.

A frustração perante o tom do mundo académico é cada vez maior, e com razão. O pós-modernismo entrou na academia como um cavalo de Troia, e está a arrasar com uma instituição que já estava em grave decadência. Vários comentadores queixam-se da proliferação de discursos e ângulos fúteis, incompreensíveis, que nada mais fazem do que colocar perguntas que ninguém minimamente sóbrio se coloca produzindo textos que ninguém lê.

No mundo pós-moderno as perguntas não são meios para um fim. São o fim em si. Mas neste mundo de mentira e opressão há quem não tenha o luxo de poder passar a sua vida a patinar na maionese filosófica, ou num qualquer departamento universitário às voltinhas a perseguir a sua própria cauda. Os oprimidos são pessoas que precisam de ideias claras porque os seus problemas não são somente do foro metafísico- são problemas materiais, tangíveis, bem reais. Estas pessoas, historicamente oprimidas pelo aparato Estatal, encontram também agora em académicos e comentadores pós-modernos um novo inimigo, que não têm nada mais para oferecer senão gozo perante qualquer coisa que se pareça com um discurso conciso.

O Estado nega a estas classes oprimidas o direito à ação emancipatória. Os pós-modernos negam-lhes o direito a ter ideias simples e eficazes, sem as quais a ação decisiva é impossível. A cumplicidade entre os dois é óbvia. Enquanto o poder instituído age de forma ultra-determinista, a população fica assim a nadar, melhor, a afogar-se na confusão perpétua. Para os pós-modernos, esta confusão não é uma doença que deve ser curada pelo conhecimento e pela sabedoria. É uma virtude. A única virtude. Eles dizem: “Eu só sei que nada sei e se tu pensas que sabes então eu claramente sei mais do que tu”. A isso devemos responder, “se só sabes que nada sabes então cala-te e deixa falar quem sabe”.

Mas ainda há esperança. O pós-modernismo, pela sua própria natureza confusa e elitista, derrota-se a si próprio por ser inacessível à maioria da população. Os ventos da mudança são claros, e estão a soprar na direção do determinismo. A tragédia tem sido que quem tem capitalizado com esta onda são os Brexiteers, os Trumps, as Le Pens e os demais inimigos da população. Se a oposição a estas forças do obscurantismo permanecer paralisada pelo pântano pós-moderno, a ala autoritária terá a vida facilitada, e irá varrer esta fraca e desorganizada oposição facilmente. Não parece que vá ser o caso. Resta somente saber quanto tempo vamos ter que esperar até que a rejeição do pós-modernismo se propague a todo o espetro de persuasão política.

João Silva Jordão